22nd of March

Tréplica a Eliel Vieira


Eliel, um cristão que conheci num debate virtual, honrou um dos meus vídeos do You Tube com uma réplica em seu blog.

Eliel especula se nossos sobrenomes advêm de uma ancestralidade comum. Eu digo que sim, é provável. Não conheço muito da origem do nome Vieira em Portugal. Já vi o brasão da família Vieira. Sei também que o nome vem – como se nota no brasão – de um animalzinho do mar, a vieira, que é um molusco bivalve capaz de nadar usando suas conchas que abrindo e fechando expelem a água em jatos. As primeiras pessoas a se chamarem de Vieira apareceram entre 1040 e 1200.

Mas não dou tanta importância a linhagens e estirpes caracterizadas dessa forma. 1000 anos da história do nome Vieira não são muito frente a pouco mais de 10 mil anos da chegada dos seres humanos ao continente americano, frente a uma história de alguns milhões de anos dos primatas do gênero Homo, e cerca de 10 milhões de anos da história dos primatas bípedes.

Se existe uma história clara à qual me sinto inclinado a prestar tributo, é a história do conjunto de condições naturais que, como uma luz bruxuleante de uma estrela distante, atravessaram mares de tempo até ter tido a sorte de firmar uma leve âncora no presente. Âncora fugaz que um papel diz que tem o nome de Eli Vieira Araujo Júnior.

Eu e Eliel não somos simplesmente Vieiras. Nós somos parte das condições naturais que deram origem às verdadeiras vieiras, que têm conchas. Afinal, apesar de eu e ele não termos conchas nem morarmos no mar, como as vieiras originais nós temos o mesmo código genético, fazemos nossos corpos se mexerem com as mesmas moléculas. Nós somos um dos milhões de ramos da árvore da vida, e nossa estirpe se estende às estrelas e galáxias. Quer estejamos ambos cientes disso ou não, os átomos de nossos corpos, em trânsito pelo fluxo inconstante desses corpos, tiveram sua origem no calor do coração de uma estrela.

É isso que uma visão naturalista do mundo tem a dizer para nós. É um espetáculo em termos de estética, identidade e valores, para mim. E o melhor disso tudo, é que o conhecimento que temos de tudo isso que eu falei aqui é um conhecimento confiável. Tem bases sólidas, não digo indubitáveis, mas sólidas. Merecem tanta dúvida (ou tanta certeza) quanto o fato de o planeta estar neste momento nos atraindo em direção ao seu interior e não nos expulsando para o vazio.

Mesmo com um pouco de dúvida, eu sairei amanhã de casa sem esperar que de repente meu corpo seja arrebatado em direção aos céus. Para fins práticos, simplesmente acredito que a lei da gravitação continuará valendo, porque assim me dizem as evidências de duas décadas de vida.

Posso dizer que a minha atitude em relação à gravidade é racional.

Já dei um pequeno esboço sobre as condições naturais que nos identificam, Eliel e eu, num mesmo grupo. Uma mesma família. Uma mesma linhagem, que é, repito, aquela das estrelas, galáxias e vieiras.

Passemos então aos pequenos detalhes que nos distanciam. Esses detalhes estão em nossas mentes, particularmente naquelas partes de nossas mentes que são resultado das duas independentes histórias de vida. Memórias são grande parte disso.

Para isso, voltemos aos comentários de Eliel sobre o meu vídeo.

Ele parece incomodado com a relação que eu tenho com o evolucionista britânico Richard Dawkins. Primeiro, sem nenhuma premissa minimamente creditável, pensa que o que digo no vídeo é meramente uma “leitura” do pensamento de Dawkins em um de seus livros, que li há dois anos. Como isso somente pode ser verificado nas minhas memórias, creio que eu tenho mais autoridade que Eliel para afirmar que o que eu digo não é meramente uma repetição ou “leitura” de Dawkins, mas o resultado tanto de uma bagagem intelectual mais ampla quanto de qualidades intrínsecas de uma forma de pensar que elaborei (também a partir de leituras, pois nada é absolutamente original) do começo da minha adolescência adiante.

E naquele tempo essa forma de pensar que elaborei teve como resultado meu desligamento permanente do Cristianismo. Eu tinha entre 14 e 16 anos.

Mas espero que Eliel compreenda que não importa as proporções de analogia e homologia que meus argumentos têm com argumentos alheios, importa é se são válidos ou não. Como eu disse ao Chanceler da Universidade MacKenzie (texto que Eliel fez questão de citar), certas ilações retóricas estão completamente desvinculadas do debate central, embora muitas vezes, implicitamente, os debatedores pretendam ligar focinho de porco a tomadas de uma forma falaciosa (ilógica, irracional, absurda). Então, ainda que eu fosse uma máquina de realejo cuja manivela é rodada por Dawkins, ou Dennett, ou Russell, ou Epicuro de Samos, o importante é que a canção está sendo ouvida.

Também pouco importa o timbre da minha voz, a minha oratória pobre ao ter feito o vídeo, o que importa é que esteja inteligível para falantes da língua portuguesa. De longe este vídeo foi a coisa mais fácil de fazer em todo o arquivo do meu blog. Eu meramente, numa tarde ociosa de fim de semana, resolvi ligar o microfone do meu computador e falar durante sete minutos sobre o que está muito melhor argumentado e loquazmente tratado ao longo de todo o arquivo do Tetrapharmakos in Vitro. Depois procurei imagens no Google para encaixar ao discurso no áudio.

Mas sim, Eliel, tomo positivamente a sua crítica aos aspectos não-argumentativos do vídeo, mas não espere que eu vá tratar um hobby de fim de semana com a mesma seriedade que trato algum texto em que busco veicular alguma ideia minha.

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A frase panfletária com que começo o vídeo, “acreditar em entidades sobrenaturais sempre foi uma coisa muito irracional”, foi criticada por Eliel como se carecesse de justificação. Mas o restante do vídeo é justamente a justificação: além de entidades sobrenaturais, por definição, não serem acessíveis a nenhuma empiria humana, portanto não são evidenciáveis, são improváveis por serem dotadas de uma complexidade injustificada em “lugares” onde não se espera encontrar essa complexidade. (Não se espera, por exemplo, encontrar mentes, pelo que sabemos do surgimento do único tipo de mente que conhecemos. Argumento sobre isso em “Opiniões, mentes e peixes“.)

Para tentar refutar essa frase panfletária, Eliel dá uma lista viciada de filósofos gregos: Sócrates, Platão e Aristóteles, que eram pensadores “brilhantes” que acreditavam em entidades sobrenaturais (isso já é uma falácia ad verecundiam, de apelo à autoridade – pois só porque alguém brilhante acredita numa coisa, isso não torna essa coisa verdadeira).

Na Apologia, Sócrates é julgado e condenado justamente por impiedade, por não aceitar os deuses da cidade, e por corromper a juventude com essas crenças. Não está claro o que exatamente era o que Sócrates chamava de daimonia, que o inspirava em sua cruzada de questionamento. Ainda assim, o exemplo serve para mostrar como as crenças sobrenaturais são frágeis em matéria de evidenciação e justificação: um desvio pequeno como o de Sócrates lhe custou a vida, por desafiar as entidades sobrenaturais dos cidadãos de Atenas. (Se as crenças sobrenaturalistas fossem epistemologicamente justificadas, teríamos concordância tanto quanto temos concordância sobre noções espaço-temporais universais nas culturas.)

Quanto a Aristóteles, pelo que me consta, o deus de Aristóteles está muito distante de ser uma entidade sobrenatural, pois ele é usado para justificar um todo natural para o qual ele é o motor imóvel. Ele não faz nada, as coisas é que se movimentam em “tributo” a ele. Ele é parte de um cosmos inteiriço.

Nada além da formação cristã de Eliel justifica essa escolha de exemplos de filósofos antigos e respeitáveis que acreditavam em entidades sobrenaturais, como se isso ajudasse na defesa de um Deus ou Deuses.

Temos outros filósofos tão importantes quanto, que não são tão sobrenaturalistas quanto Platão. Exemplos de pensadores gregos que desafiaram os deuses são Protágoras, Eurípides, Pródico, Crítias, Diágoras (o ateu a quem Sócrates é comparado na comédia “As Nuvens” de Aristófanes), Epicuro. Isso sem mencionar pensadores não gregos que também questionaram, como Cícero, Diógenes de Oinoanda (cujas inscrições foram citadas na fundação deste blog) e Lucrécio.

Disse Protágoras, no século V AEC:

“Sobre os deuses, sou incapaz de descobrir se existem ou não, ou como é sua forma; pois há muitos entraves para o conhecimento, a obscuridade do assunto e a brevidade da vida humana.”[1]

Protágoras foi o primeiro filósofo a ser chamado de ateu, embora o termo moderno não se aplique a esta postura, e sim o termo ‘agnóstico’. (Mas a definição de Michael Martin de “ateísmo negativo” se aplica a esta postura, por se tratar de evitar investir positivamente crença nos deuses.)

Independente de todas essas informações, o que é importante notar é que a contribuição de todos esses pensadores à Filosofia, inclusive Platão, Sócrates e Aristóteles, não está vinculada a crenças que poderiam ter em entidades sobrenaturais. Usar da autoridade deles para tentar defender essas entidades é uma falácia.

Como argumentei antes, a interpretação bem comum de pensar a filosofia como o afastamento racional de mitos é acertada e encontra equivalentes não gregos. O que Platão fez com seu demiurgo e sua visão criacionista do mundo foi meramente tentar reintroduzir os mitos na filosofia, quando Protágoras, no mesmo século, os afastava. Ao pensar que sua família poderia ser descendente direta de Posêidon[2], e, similarmente, que os seres vivos descenderiam de homens perfeitos similares a deuses[2] através de um processo de descendência com decadência, Platão estava sendo irracional. Racional foi Protágoras, ao perceber imediatamente a inefabilidade dos deuses, e Epicuro, ao afastá-los do mundo natural.

Portanto, diferente do que Eliel insinua, os fundadores do pensamento racional, ou seja, os filósofos, poderiam ter atitudes tanto racionais quanto irracionais (ou arracionais) ao tratar do assunto dos deuses. E a parte da filosofia de Platão que se funda nessas entidades sobrenaturais é irracional, injustificada, e a pior parte do legado desse filósofo.

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Em seguida, Eliel cria espantalhos. Diz que eu estou afirmando que os crentes em entidades sobrenaturais são “outros anselmos”. Eu não digo isso em momento algum. Eu meramente tomei uma das primeiras tentativas de justificação racional da existência de um deus para expô-la tão ridícula quanto ela é, pois está completamente fundada em falácia non sequitur.

Quanto a Descartes, um dos criadores do chamado “deus dos filósofos”, digo o mesmo: não se segue que o deus dos filósofos tenha ligação com um sujeito ressuscitando há dois mil anos no oriente médio. Non sequitur.

Isso sem nem entrar no mérito de o deus dos filósofos ser realmente justificado filosoficamente.

Eliel me pergunta:

“René Descartes acreditava em uma entidade sobrenatural absolutamente perfeita. Ele era uma pessoa irracional? Se sim, por que então Eli usa uma citação de tal ignorante pessoa em seu texto “Opiniões, Mentes e Peixes”?”

Muito simples. Uma pessoa ter crenças irracionais não quer dizer que essas crenças destróem toda a sua produção intelectual. Eu seria um preconceituoso e um falacioso se eu só utilizasse fontes ateias. Entretanto, a contribuição de Descartes para o ateísmo é nítida: ele reintroduz o ceticismo na filosofia justamente na fonte que Eliel usou: “Meditações…”. Ele teve um treinamento teológico aos moldes de Anselmo, que abandonou (presumivelmente por perceber a fragilidade das falácias ali contidas). O que restou a Descartes, mais tarde, foi trabalhar com “fantasmas na máquina”, tanto a alma quanto Deus, cada qual ocupando sua respectiva máquina: o corpo e o universo.

Não é escopo dessa tréplica comentar este erro de Descartes. Gilbert Ryle na filosofia[3] e António Damásio[4] na ciência fazem esse serviço com maestria.

A propósito, não existem pessoas irracionais. Existem crenças irracionais, foi o que eu disse no vídeo: acreditar em entidades sobrenaturais é uma coisa irracional, pois injustificada.

Eliel insiste na falácia de apelo à autoridade citando Francis Collins e Newton. Denovo: não importa a autoridade de Francis Collins (ele ocupava um cargo mais burocrático que científico no projeto genoma humano, a propósito) ou Newton, o que importa é se eles evidenciaram um deus, se forneceram bons argumentos apriorísticos para a crença nessa entidade sobrenatural. E a resposta é não, como todos os teístas eles falharam neste intento, e Collins se limita a buscar lacunas na moralidade humana e tecer apelos fideístas pela crença em Deus.

Eliel continua:

“Quer dizer que quando eu tento justificar algo que não goza de evidências no mundo natural eu estou sendo falacioso?”

Isso é uma inversão do que eu disse. Eu disse que os teístas precisaram ser falaciosos porque tinham necessidade de justificar algo que não goza de evidências no mundo natural. Não se segue disso que toda tentativa de justificar coisas sem evidências no mundo natural é falaciosa.

Como eu já havia comentado no vídeo, Anselmo incorreu em non sequitur. Se o deus de Anselmo fosse tão claro e distinto quanto a existência de cristais de quartzo, ele não precisaria disso.

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Como Eliel não quis responder ao enigma de Epicuro na réplica ao meu vídeo, também não trabalharei sobre uma tréplica extensa. Sei que os argumentos de livre-arbítrio e “escrever certo por linhas tortas” que os teístas emitem não resolvem em absoluto este enigma e ajudam a tornar o deus cristão uma entidade sobrenatural extremamente improvável por ter atributos auto-contraditórios e contraditórios com o estado das coisas no mundo.

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Passemos ao argumento da complexidade. Para começo de conversa, as possíveis definições com as quais estou trabalhando não dependem do momento histórico em que se encontram. Portanto, falar em Sócrates vendo radinho de pilha é irrelevante. O radinho de pilha é tão complexo hoje quanto seria complexo no tempo de Sócrates.

A complexidade a que me refiro não é atributo cuja quantidade é diretamente proporcional à dificuldade da mente humana de entender o objeto dotado de tal atributo.

Complexidade no meu entender é da ontologia das coisas. Dizer “X é mais complexo que Y” significaria que X tem uma quantidade maior de partes internas e maior quantidade de tipos de interação entre essas partes internas que Y. Por isso, uma esfera oca com duas esferas internas é mais complexa que uma esfera maciça do mesmo tamanho (assumindo-se que essas esferas sejam feitas do mesmo material, por exemplo, ferro).

Digo com segurança que é mais provável alguém encontrar por aí uma pedra esférica de granito, feita por força do intemperismo natural, do que uma esfera de granito oca contendo duas esferas menores dentro de si, originada da mesma forma. Isso é tanto uma tese filosófica quanto uma tese empírica. Estou seguro disso, e posso ser posto à prova.

Essa tese minha também deriva do meu conhecimento de biologia. Se assim parecer, pode-se dizer que esta é a minha tese metafísica principal. Metafísica num sentido estrito de explicação válida independente do contexto físico em questão.

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Continua Eliel (ainda atacando a originalidade do meu pensamento):

“O argumento apresentado por Dawkins da improbabilidade (que Eli repetiu nesta citação) daria margens para os bichos-de-goiaba (atribuindo a eles uma razão mínima, proporcional à sua evolução) provarem que nós, seres humanos, não existimos. Afinal, pareceríamos extremamente improváveis e complexos à analise deles.”

Para começar, bichos de goiaba disporiam de meios de detectar empiricamente a existência dos humanos. Em segundo lugar, os bichos de goiaba não atribuiríam características absolutas e perfeitas a nós, o que nos tornaria extremamente improváveis. Se os bichos de goiaba conhecessem apenas os bonobos, se fosse perguntando a eles se eles achavam que poderia existir uma espécie parecida, aparentada, mas mais inteligente, e menos peluda, eles não achariam o ser humano tão improvável quanto se perguntássemos a eles se existiria uma espécie parecida porém infinitamente inteligente ou infinitamente malcheirosa (ou outras variáveis contínuas afins).

Eliel se surpreende que, apesar da complexidade do ser humano, nós estamos aqui. Então Deus (o dos cristãos) também poderia estar. Acontece que a probabilidade de um evento que já ocorreu é 100%. É improvável que uma pessoa ganhe na Mega Sena, mas é simplesmente inexorável que alguém ganhe. A cada número que se sorteia na Mega Sena, uma parte dos concorrentes é eliminada. Então existe uma gradação histórica em que a improbabilidade é diluída. Quando você acerta quatro números, a probabilidade de acertar os próximos dois aumenta.

A eliminação das possibilidades que não se ajustam é justamente a definição de seleção natural. Foi esse o processo principal que fez moléculas replicantes de 4 bilhões de anos atrás darem origem ao ser humano entre 100 e 200 mil anos atrás.

Acontece que isso aconteceu num contexto local, o planeta Terra. Muitos atributos da mente humana, se não todos, são fruto de contingências históricas. O que se faz ao acreditar num deus é atribuir essa mente, com suas contingências históricas, a contextos fora do planeta Terra, e é isso que faz os deuses serem extremamente improváveis. Não há teísta que não pense que Deus tem estados mentais como compaixão, atenção, e faz coisas como criação e planejamento.

Quem abandona esse caráter mental da divindade são apenas os panteístas. E ser panteísta é uma coisa plenamente compatível com uma cosmovisão naturalista, que é a minha. É apenas um desperdício de lírica e uma perda de tempo chamar a natureza de deus, depois de tudo o que deus significou na história.

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Eu achei bastante engraçada a estratégia do Eliel de tomar um recurso retórico meu como se fosse um argumento. “Uma coisa que me incomoda bastante”, eu disse, seria que pessoas aprendem sobre filosofia e ciência mas não mudam sua crença no sobrenatural. Mas não me incomoda em nada, até que não tentem interferir na ciência com essa crença irracional. Não me incomoda em nada que as pessoas façam o que bem entenderem na sua vida particular, principalmente em sua vida particular mental, e acreditem no que quiserem, até em Papai Noel.

Eliel diz que o meu ateísmo não está justificado. Mas está: eu já falei, inclusive no vídeo, que quando compreendemos que entidades complexas têm origem em entidades simples, não há espaço para uma mente na origem do universo. Portanto, para todos os efeitos, é improvável que exista o deus dos cristãos. Mais improvável ainda por ser oni- várias coisas, ou seja, perfeito.

O perfeito só cumpre um papel abstrato na mente humana. Assim como o espaço na física não é infinitamente divisível como é na matemática, a mente perfeita que imaginam os teístas é improbabilíssima no mundo ou fora dele. Pois mesmo que esteja fora dele, é um conceito baseado na mente que está dentro dele, a mente humana.

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Para o que Eliel batizou de “paradoxo de Eli”, não vi boa resposta. Eliel parece alegar que meu paradoxo (que se refere às escrituras) leva a uma falsa dicotomia. Não leva. Apenas mostra, como o enigma de Epicuro, que a noção de entidade perfeita divina está em conflito tanto com a indiferença moral do mundo quanto com a imprecisão, contradição e inutilidade prática das escrituras ditas sagradas. Para entender melhor o meu enigma, é necessário ler o texto original, “Religião (Cristã): o problema da coerência“. (Assim é resolvido também o que ele chama de “abobrinha” minha.)

Espero que Eliel se dedique um pouco mais a entender o que querem dizer os “dois ou mais enigmas” e o “Deus improvável”. Os dois ou mais enigmas são apenas acessórios (importantes) ao argumento da improbabilidade. Eliel continua fazendo o que eu repetidamente acuso os teístas de fazer: firmarem sua crença irracional na noção da mente divina.

“Deus quer se revelar aos homens, mas não quer que os homens o sigam por medo ou de forma forçada, e sim por gratidão e amor.”

Eliel assume tacitamente que Deus tem estados mentais. Espero que compreenda que foi em “Opiniões, mentes e peixes“, e não em videozinhos feitos de improviso, que argumentei cuidadosamente a respeito.

Em todo caso, esta resposta é completamente insatisfatória para o enigma das escrituras (ou “paradoxo de Eli”). Que outra fonte epistemológica frágil poderia ser dada para a crença monoteísta então? Revelação? O deus dos filósofos? Que conexão ele teria com as diversas outras crenças irracionais que Eliel aceita ao se declarar cristão?

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Sobre o Big Bang, para começo de conversa, ele não é uma explosão. O estado das coisas logo no começo do Big Bang, ou seja, nas conhecidas frações de segundo imediatamente após o começo da expansão, era sim mais simples que os estados posteriores. Basta buscar saber o mínimo sobre nucleossíntese. Basta saber, como eu disse no começo desse texto, que átomos mais pesados são feitos a partir de átomos mais leves – mais simples – na fusão estelar.

É um pequeníssimo salto indutivo dizer que o estado anterior ao que se conhece, precedente à nucleossíntese, era ainda mais simples.

Eliel faz uma confusão quixotesca entre simplicidade e “sintonização” de constantes físicas. Que se lembre novamente a definição de complexidade que estou usando. Sobre as constantes, o assunto é outro. Sobre a suposta sintonia fina das constantes do universo, repito o que disse a Eliel no primeiro debate que tive com ele (inclusive, o que é curioso, estou tendo de repetir várias coisas que já disse lá):

“Até que ponto a sintonia é de fato “fina”?

Vejam nosso sistema solar: vida só aqui.

150 mil anos de Humanidade, 8 a 10 mil anos de civilização, e até agora nada que indique haver alguma forma de vida fora desse planeta, menos ainda vida inteligente.

Não acho que o Universo seja tão finamente sintonizado assim em nosso favor! Nós é que viemos de um processo de evolução biológica que se acomodou à falta de sintonia e toda a feroz resistência à vida que encontramos aqui.

Não necessitamos cometer o erro prosopopaico de atribuir uma mente à sintonia do universo. Há mil anos, a psicologia popular, dotada da postura intencional, atribuía mentes a qualquer coisa no mundo físico (isso é Dennett).

À medida que nossa cultura evoluiu e nos apropriamos de conhecimentos funcionais sobre o mundo, nos sentimos forçados a deixar de atribuir intencionalidade e mente a coisas “mecânicas” demais, como o Sol, a Lua, e até as doenças, do corpo e da mente. Hoje, no que se pode chamar de religião mais ‘sofisiticada’, a postura intencional literalista foi pulverizada para algo etéreo, sintonizador de universos, causa primeira e todo esse papinho mole nauseante de tão repetido por aí.

Mas, com um sorrisinho maroto, nós céticos vemos que a Teologia é como um ignorante que deixa escapar sua ignorância a cada vez que abre a boca para tentar fingir saber de alguma coisa. É um ignorante, mas não apenas isso, é um burro, porque burro nada mais é que o ignorante que se recusa a reconhecer que ‘sobre o que não podemos falar devemos nos calar’ (isso é Wittgenstein).

O ateísmo agnóstico (que eu chamo de ateísmo assintótico) é proveitoso porque admite a ignorância onde ela está. Não sabemos, simplesmente, as origens últimas de tudo isso que nos cerca. Isso eu chamo de ‘grande ininteligível’ ou ‘ininteligibilidade ulterior’ (essa última expressão é de Peter Medawar, mas sobre os sonhos).

Não sabemos se existem mentes extraterrenas vivendo em outros planetas e evoluídas de outras conjunturas. Mas temos bons chutes sobre em que escalas ela seria provável e em que escalas improvável.

Mais improvável em Marte, por exemplo, do que orbitando alguma estrela de Andrômeda. Boa parte da obra de Carl Sagan é dedicada a esse tipo de racionália.

Mentes biológicas, evoluindo de replicadores diferentes, em planetas diferentes, vá lá. Mente onipotente, onipresente, onisciente, onifodente, que não consegue imaginar nenhum método melhor de fazer algo que preste nesse planeta a não ser se torturando numa cruz, na forma de seu próprio filho? Ter tanta certeza de que tal coisa existe, e ainda é responsável por sintonizar as constantes físicas, isso sim dói na razão.

A melhor coisa que podemos dizer sobre isso, esse deus, é que é extremamente improvável.

Não precisamos atribuir crença a coisas extremamente improváveis. No máximo, numa atitude excepcionalmente altruísta, as consideramos como hipótese (lembrar o conselho de Epicuro de Samos, que já passei).”

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Enfim, Eliel toma uma exposição rápida de sete minutos como se fosse a fonte primária do trabalho filosófico que venho desenvolvendo neste blog há mais de um ano. Comete outra falácia, desta vez ad hominem, ao insinuar que eu estou incomodado com as crenças pessoais e privadas das pessoas e que isso seria reflexo de alguma fragilidade da minha argumentação ateia.

O meu ateísmo é tão fraco e tão forte quanto mostra o arquivo de um ano e meio do Tetrapharmakos in Vitro.

Não tenho necessidade de adjetivar as crenças de Eliel com nada mais além de “irracionais”. Se boas ou ruins, não vem ao caso. Se frágeis ou fortes, tampouco.

O caso é que a ausência de manifestação divina atual, como supostamente acontecia no passado de acordo com a Bíblia (ou o Corão, Torá, ou qualquer texto sagrado de descreva os absurdos que Eliel chama de milagres), só depõe a meu favor. Eu, que estudo os seres vivos, sua origem, seu funcionamento, derivo disso a noção de que uma cosmovisão naturalista é a mais adequada às evidências de que dispomos. É a mais provável de ser verdadeira, portanto.

Se curvar à força das evidências, aos padrões de contingência e probabilidade descritos pelas nossas teorias, é uma atitude racional. Racional, pois é tão logicamente consistente quanto referenciada num brando realismo funcional.

Continuar acreditando em deuses é uma atitude irracional por ir na contramão disso tudo em favor de disposições emocionais e o que Carl Sagan chamava de wishful thinking.

Eis, em resumo, os pequenos detalhes que nos separam, Eliel. Os que nos unem são numerosos.

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Há mais de 2300 anos, existiam dois filósofos chineses que viviam discutindo sobre vários assuntos. Chuang Tzu tinha uma postura mais idealista, relativista. Hui Tzu tinha uma postura mais científica, realista. Sua disputa era constante. Entretanto, sua amizade era profunda.

Eis que Hui Tzu morreu antes de Chuang Tzu. O último contemplou seu túmulo e disse para seus alunos: “Desde que Hui Tzu morreu, eu, também, não tive nada apropriado com o que trabalhar, não tenho mais ninguém com quem eu possa realmente conversar”.[5]

É neste espírito de valorização mútua de partes em disputa que encerro esta tréplica. As vieiras podem ter conchas mais ou menos duras. Mas continuam sendo vieiras.

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REFERÊNCIAS

1 – Michael Martin (ed). The Cambridge Companion to Atheism.

2 – Karl Popper. A sociedade aberta e seus inimigos. Interessa para este texto a seguinte passagem:

“Em plena concordância com essa teoria geral [das formas ou ideias] situa-se a história que Platão dá, no Timeu, da origem das espécies. Segundo essa história, o homem, o mais elevado dos animais, é gerado pelos deuses; as outras espécies originam-se dele, por um processo de degeneração e corrupção. Primeiramente, certos homens – os covardes e vis – degeneraram em mulheres. Estas, privadas de sabedoria, degeneraram passo a passo em animais inferiores. As aves, conta, surgiram da transformação de pessoas inofensivas, mas demasiado condescendentes, que confiariam excessivamente nos próprios sentidos; “os animais da terra vieram de homens que não se interessavam por filosofia”; e os peixes, inclusive os moluscos, “são a degeneração dos mais tolos, estúpidos e… indignos” de todos os homens.”

3 – Gilbert Ryle. Descartes’ Myth. in The Concept of Mind.

4 – António Damásio. O erro de Descartes.

5 – Arthur Waley (trad.). Chuang Tzu.

  • E aí cara,

    Primeiramente, feliz aniversário.

    Sobre a resposta à minha resposta, fiquei feliz em recebê-la (por ter demorado muito achei que nem ia chegar) enfim.

    Esbocei algumas coisas referentes à sua resposta e, na medida que o tempo permitir, vou escrevendo e preparo uma “tetraplica”.

    Abração!