13th of November

Sonhos premonitórios


Encontrei pela internet o relato de uma mulher que alegava ter previsto em seus sonhos várias coisas, entre elas a morte de uma pessoa num acidente de moto e os números da Mega Sena (maior jogo de sorteio brasileiro, com prêmios na casa dos milhões). Ela perguntava, sobre os sonhos, “o que eles querem dizer? Será que há alguma explicação para isso? Onde posso obter ajuda? Será que estou ficando maluca?” Ela recebeu logo várias respostas, previsivelmente dizendo que ela tinha “alguma mediunidade”, uma “missão de Deus”, etc. Falaram até em “mundos paralelos”, “física quântica”, e todas essas respostas fáceis do imaginário popular do século XXI. Eis a minha modesta, porém firme resposta.
___ Muito bem, antes de dar a minha opinião minoritária, gostaria de deixar claro que não tenho a intenção de ofender ninguém. Mas a minha opinião é: nenhuma das explicações dadas aqui passa perto do que deve ser a verdadeira explicação para o que acontece com a senhora que iniciou o tópico.

E vou dizer o porquê. Se houvesse algum verdadeiro poder premonitório em alguma pessoa, por que então não temos até hoje nenhuma evidência de que alguém tenha de fato evitado um acontecimento ruim, comunicando com antecedência a sua premonição? Claro que relatos há, de que o primo do amigo do tio do vizinho fez isso e aquilo, mas podemos considerar algo tão frágil uma boa evidência? Não.

Não podemos porque relatos têm a fragilidade da subjetividade das poucas pessoas que os proferem. Se eu afirmo que existiu um presidente brasileiro chamado Getúlio Vargas, essa afirmação conta com diversas evidências histórias: documentos, vídeos, fotos, e também relatos, mas dessa vez eu levo relatos em conta porque existe uma convergência universal de todos os relatos: pouca gente ou ninguém diria que não existiu um Getúlio Vargas (em todo caso, relatos continuam sendo preferencialmente fontes secundárias).

Portanto, quando essa ilustre senhora disse que previu coisas como os números da Mega Sena, só podemos contar com seu relato, e talvez com o relato da pessoa que ganhou o prêmio. São relatos isolados e não uma convergência de relatos diversos. E o fato já aconteceu, o que torna a evidência mais fraca ainda.

Não podemos afirmar que premonição onírica (através de sonhos) é real com base apenas nesse relato, pois evidência anedótica não é evidência confiável.

Existe, de fato, a crença universal, em praticamente todas as culturas humanas, de que o sonho pode ter função premonitória. Por que? Será que realmente meras pessoas dormindo conseguem violar todas as leis da física conhecidas e fazer uma visitinha ao futuro?
Temos relato universal de que há sonhos premonitórios, mas isso não prova que existe premonição verdadeira. Quanto às explicações religiosas, de que é um "dom" ou uma "mediunidade", bem, somente o fato de os religiosos não conseguirem concordar entre si para explicar o que é isso já me basta para não considerar uma explicação melhor que a outra.
Primeiro, porque não há evidência nenhuma de que existe um Deus, muito menos de que caso exista ele dê dons de forma tão desigual para as pessoas, de modo a presentear algumas com premonição e outras com mal de Parkinson.

Segundo, porque não temos também evidência alguma de algo que se passe na mente humana e possa ser chamado de "mediunidade", no sentido de contato da mente com entidades ou fenômenos sobrenaturais. Até porque, até hoje ninguém provou que há mesmo um mundo sobrenatural, ou espíritos.

O que diriam as religiões egípcias a respeito disso? Qual dos deuses egípcios – Rá, Khepri, Ísis seria responsável por isso? E o politeísmo  greco-romano, como explica?

Não me deram também nenhum motivo para descartar as explicações das religiões que ninguém mais pratica para adotar as explicações das religiões atuais. Khepri e Vênus têm tantas chances de serem reais quanto os espíritos superiores de Kardec e o Espírito Santo dos católicos.

Todas discordam entre si, e as que concordam não têm muitos motivos além da pura fé para concordarem.
Enfim, se queremos ser imparciais, não podemos adotar uma explicação religiosa particular em detrimento de todas as outras.

Falemos agora de ciência. Como eu disse, presumir que uma pessoa é capaz de transportar sua mente para o futuro não é algo que está de acordo com o que sabemos sobre leis físicas que regem o mundo natural. Até porque o futuro é um mar de possibilidades indeterminadas, não um enredo de novela da Globo (que é sempre muito previsível).

Temos livre-arbítrio, não temos? Eu posso escolher ir ou não ir à aula amanhã, se alguém é capaz de prever o que eu vou fazer, é porque meu futuro é determinado, então eu não tenho escolha nem livre-arbítrio.
Então, várias pessoas, ao acreditar em premonição, negam o livre-arbítrio inadvertidamente!

Bem, mas o assunto é ciência. Para sabermos se nossa companheira aqui é capaz de prever o futuro com seus sonhos, precisaríamos então testá-la. E eu acho que é isso que ela deveria se prontificar a fazer, se fosse de seu interesse que acreditássemos nela.

Da próxima vez que ela tivesse um sonho premonitório, precisaria ter um método confiável de registrar que o sonho veio antes do evento que ele previu. Esperaríamos que o evento acontecesse, com observadores imparciais, e compararíamos com a previsão.

Isso seria muito fácil de fazer com os números da Mega Sena. Basta anunciar que sabe os números antes do sorteio, lacrar em público um documento contendo os números (claro, não precisa revelar quais são), e depois do sorteio confirmaríamos se acertou.
Isso foi uma reflexão sobre como se pode usar o método científico para investigar a questão.

Agora, vou falar do que já sabemos sobre os sonhos.
Sabemos que a maioria das culturas, se não todas, acreditam em premonição onírica.

Sigmund Freud especulou, em seu livro "A interpretação dos sonhos", que haveria um remanescente das memórias do dia no  enredo dos sonhos da noite que se segue.

Freud estava certo. A moderna fisiologia confirmou que os sonhos são importantes para as memórias, pois as pessoas que não dormem uma noite se lembram menos do que aconteceu no dia anterior.

No mês passado (precisamente 10 de outubro de 2008) eu estive numa palestra, na Universidade de Brasília, do neurocientista Sidarta Ribeiro, professor da UFRN e pesquisador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal. Nesse instituto colabora o Dr. Miguel Nicolelis, que poderá ser o primeiro brasileiro a receber um prêmio Nobel.

Foi muito esclarecedora a palestra do Doutor Sidarta. Ele nos mostrou como a sua pesquisa mostra que na fase do sono em que acontecem os sonhos (em que costumam acontecer os sonhos na esmagadora maioria das pessoas), que é a famosa fase REM, acontece a consolidação das memórias.

Consolidação, porque as memórias que adquirimos durante o dia são lábeis, frágeis, ficam na forma de uma reverberação nos neurônios.
Então, o que as pesquisas de Sidarta Ribeiro e sua equipe em Natal estão concluindo, e nós devemos ficar muito orgulhosos por isso estar acontecendo também no Brasil, é que uma das grandes razões pelas quais nós precisamos dormir é porque o sono consolida nossas memórias.

E os sonhos nisso? Na palestra, o que ficou claro para mim é que é tudo muito incipiente ainda, entretanto, são boas intuições incipientes que levam a boas descobertas científicas, e a do Dr . Sidarta é de que os sonhos são a "simulação de um futuro possível com base em experiências do passado".

Por essa razão, crianças que moram em países em guerra sonham com guerra! Povos que vivem na savana africana sonham com feras da selva!

Não é que os sonhos são capazes de violar tudo o que sabemos e visitar o futuro (se é que o futuro é algo determinado capaz de receber visitação), o que é provável é que as memórias consolidadas no sono das pessoas servem como base para uma simulação interna, como em video game, de um futuro possível que essa pessoa pode passar.

Por isso, se você vê um ente querido andando de moto, assiste na TV acidentes de moto, e fica pensando muito nisso, tudo isso vira memória consolidada e serve como "planilha de dados" para o sonho, que não é um ‘vidente’, e sim ‘analista financeiro’, e provavelmente simulará um futuro possível em que seu ente querido se acidenta.
E, infelizmente, é algo que pode mesmo acontecer. Os futuros possíveis podem coincidir com futuros reais, e isso é a base do conhecimento milenar de que os sonhos são premonitórios.

É esta a interpretação do neurocientista que citei, e estou de pleno acordo com ele. É uma explicação econômica, simples, realista, pragmática e funcional. Pode estar errada? Claro. Mas tem seu mérito e poderá também ser confirmada: sonhemos com isso.

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cucoP.S.: A autora das perguntas no começo dessa postagem parece preferir continuar acreditando em algo sobrenatural nos sonhos, embora não tenha me respondido. Outras pessoas no fórum me  responderam com – adivinhem – evidências anedóticas. Alegaram que 50% dos participantes daquele fórum, se eu perguntasse, confirmariam que o sonho tem poder de premonição. E assim caminha a humanidade.

  • Gostei da hipótese de que os sonhos são uma “simulação de um futuro possível com base em experiências do passado”. Talvez o seja tanto quanto nossa imaginação diária o é, exceto pelo fato de que poucos conseguem deliberadamente controlar os sonhos.

    Bom artigo! Abraços, Eli!

  • Caro Eli, a exemplo do que disse o Daniel, também gostei da hipótese de que experiências do passado podem compor o “futuro” nos sonhos.

    Também gostei de sua “intervenção” no vídeo sobre a cientificidade dos caçadores.

    Era minha intenção comentar na própria postagem, mas nela parece não haver o link.

  • É uma boa idéia que realmente no sonho façamos modelos para saber como agir na vida real no caso de isso ocorrer. É melhor simular antes do que fazer sem ter algum ponto seguro. (Bem, Dawkins fala disso em O Gene Egoísta, que o Eli leu tão provavelmente como existe um deus [falando sério: não tem como comparar]).
    Foi importante mencionar das muitas religiões, qualquer uma poderia ser verdadeira, e nenhuma dá motivos para que uma seja mais forte que a outra (falácias não são motivos). Isso enfraquece todas.
    Enfim, foi um texto bem feito e que representa minhas idéias sobre o assunto. Parabéns!

  • Tasha

    Olá estava procurando informação sobre ” Sonhos premonitorios” e encontrei este bolg. Gostaria de deixar meu testemunho pois como qualquer pessoa normal eu tambem sonho , mas faço sonhos premonitorios, esses sei que são premonitórios porque os sinto de uma maneira muito diferente dos outros sonhos normais!São sonhos reais não sei bem explicar mas consigo distingui los e garanto que todos os sonhos premonitorios que tive aconteceram!Muitos deles custaram muito a aceitar! Gostaria de obter ajuda pois está sendo dificil lidar com este facto,sei que tenho algo de diferente em mim que me faz prever certas situações mas gostava de ser ajudada.
    Onde e como devo procurar ajuda por favor!

  • Tasha, a melhor ajuda que você pode buscar é a de um médico neurologista.

    É possível que você tenha algum tipo de falha na memória, o que provoca deja-vus.

    Se você acredita que está mesmo prevendo o futuro, eu sugiro que tente realizar o teste que eu sugeri no texto, ou algo similar, ok?

    Grande abraço.

  • Tasha : Não se preocupe. Voce pode estar sendo vítima de ¨flutuações em torno da média¨. Vou fazer as contas. Se o mundo tem 6 bilhões de habitantes e cada um deles tem, digamos, 3 sonhos por noite, em apenas 1oo dias voce terá 1 trilhão e 800 milhões de sonhos sonhados !!! Com tantos sonhos circulando por aí, as probabilidades de coincidência com os fatos do mundo real é muito maior do que coincidência nenhuma!! Esses cálculos lhe darão uma primeira idéia de como raciocínios simples podem ajudar a explicar muitos fatos da vida. Um grande abraço.

  • Tasha: Ops, digitei errado. O número correto é 1 Trilhão e 800 Bilhões de sonhos sonhados em apenas 100 dias.Mais ainda: a ¨lista¨ de possíveis catástrofes que ¨habitam¨ nossa mente é relativamente pequena, o que aumenta ainda mais as chances de coincidência. Por exemplo: Dificilmente sonharíamos com uma super nave comercial com 1500 turistas marcianos a bordo se espatifando em Saturno! Outro exemplo: Todas as noites, provavelmente dezenas ou centenas ou até mesmo milhares de pessoas no mundo sonham com queda de aviões. Se no dia seguinte ocorrer este fato, todas elas,se lembrarem do sonho, poderão dizer que tiveram uma premonição.E assim por diante. Com estas mensagens, juntamente com as do Eli,espero estar colaborando para que você se sinta mais tranquila, OK?. Outro grande abraço.

  • diz a respeito de maneira geral, porém existem sonhospremonitório de carater especifico como o irmão que vem a outro em sonho momentos após a sua morte.
    Como se dá isso?

  • Sei que o blog fala acerca de biologia, mas como houve uma situação da "especulação" freudiana, creio que posso tratar do tema em questão.

    Não creio que o que a pessoa tenha alguma falha de memória, como disse Eli Vieira. Há um artigo de Freud que trata principalmente de um caso de sonho premonitório, e seu processo interpretativo demonstrou que esse sonhos geralmente são uma produção retroativa, ou seja, o momento da lembrança do sonho premonitório (geralmente no momento em que ocorre aquilo que foi "previsto") tem efeito retroativo, ou seja, é vivido como um sonho já realizado. Esse mecanismo se encaixa na ideia freudiana de que os sonhos possuem um significado psíquico para o sujeito.

    Assim, a lembrança não demarca o momento específico em que foi real, o sonho é uma criação que se baseia e mistura lembranças mas que se estrutura com um determinado sentido psíquico.