30th of September

Moralidade religiosa é para crianças e animais


Este texto é uma complementação à minha publicação anterior em conjunto com meu amigo Júnior Camilo.

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Primeiro, vou argumentar por que penso que a moral religiosa é para crianças.

Para Jean Piaget, existem duas fases de desenvolvimento moral na criança. Em crianças mais novas, a moral é de puro respeito ao tabu. De observar regras impostas e sagradas, ditadas pelos adultos responsáveis.
À medida que a criança vai crescendo, desenvolve-se uma nova moral por causa da convivência com outras crianças: é a moral de justificação. A criança precisa agir de tal forma que não seja excluída pelas outras. Por isso, a criança passa a agir com base na Reciprocidade. Essa moral de reciprocidade, em que a criança age autonomamente, se parece com o Utilitarismo de John Stuart Mill: se não ponderar o peso de suas ações quanto a gerar dor e prazer no grupo de amiguinhos, pode terminar sendo excluída.

Em suma, a moral religiosa se parece com aquela da criança pequena, que ainda não tem cognição desenvolvida para agir por conta própria, por isso confia cegamente nas leis morais ditadas pelos pais.

Para entender por que a moral religiosa é para outros animais que não o homem, teremos de entender primeiro por que a moral religiosa não visa à felicidade. Afinal de contas, não é uma preocupação de um criador de gado de corte que cada vaca esteja feliz. Basta que a vaca exista, seja dócil e obediente, até que seja fácil de abater.

Desvincular ética e felicidade é um dos maiores crimes já cometidos por alguns sistemas de crença que se perpetuam através da doutrinação infantil. Como exemplo óbvio, podem ser citadas as religiões abraâmicas.

Ao proporem uma moral (um conjunto unilateral de regras éticas), essas religiões, e alguma instância social maior que as abrigue, parecem ter tido objetivos a atingir: garantir a agregação social, garantir a obediência a um poder central (intermediário direto de Deus, ou coligado a intermediários dessa natureza), e garantir a fé como inquestionável – o que é essencial para a integridade dessas instituições.

Essas religiões não tinham em momento algum como objetivo garantir a maior felicidade, o que é expresso até mesmo no Sermão da Montanha. Esses objetivos são adaptativos: garantem sobrevivência e reprodução tanto para as idéias quanto para as pessoas associadas a essa moral.

Essa moral religiosa foi racionalizada por filósofos eminentes, como Immanuel Kant e seu Imperativo Categórico – agir de tal forma, pela ‘boa vontade’, que sua ação possa ser tornada uma lei universal. Ou seja, agir por dever.

Agir de uma forma e não de outra por obrigação, por Imperativo Categórico, e recomendá-lo como a única Moral possível, é corroborar um sentimento de obrigação que denota medo de punição ou interesse egoísta por recompensa. Não há nada de racional no Imperativo Categórico: ele é, em seu âmago, nada menos que uma experiência cósmica de um grande Pavlov imaginário para domar instintos humanos. O interesse teísta do Imperativo Categórico é administrado sob o nome de “boa vontade”. É interessante que Kant use a palavra vontade, pois de fato um escravo que é espancado não tem vontade de voltar a ser espancado, e uma pessoa egoísta tem vontade de ser recompensada por agir “bem”, e das vontades a que tem mais poder é a do experimentador, Deus.

Aldous Huxley descreve uma sociedade futura em que humanos seriam condicionados desde a fase embrionária para executarem tarefas pré-estabelecidas pelos detentores do poder. Os regimes de condicionamento se dariam de diferentes formas para diferentes castas. Esta abominável sociedade do futuro do livro “Admirável Mundo Novo” já foi descrita como uma sociedade “da ciência”.

Entretanto, o condicionamento moral, por reforçamentos de punição ou recompensa, se identifica muito mais com pensamentos religiosos cujos adeptos somam bilhões no mundo de hoje: cristãos, muçulmanos, judeus, hindus, espíritas, entre outros. O Abominável Mundo Moderno está aqui. Ele não dispõe de maquinário complicado para a criação em massa de bebês (como imaginado por Huxley), mas dispõe de recursos humanos extensos para a doutrinação de crianças. Ele não dispõe de tecnologia para dar choques em bebês que se interessem por livros, mas dispõe de uma massa de mentes adultas que sentem um choque de culpa ao primeiro pensamento impuro de questionamento dos dogmas de fé.

Essa moral rasa é pouco humana: convence-se muito facilmente vários tipos de animais, de camundongos a invertebrados, a agir de certa forma por temer punição ou por ter expectativa de ganhar uma recompensa. Essa moral é apelativa às partes reptilianas de nossa mente, os centros mais internos do telencéfalo, relacionados ao prazer e à dor. Condiciona-se um gambá, cuja capacidade de antecipar o futuro é limitada, dando a ele algo que agrade o paladar. Condiciona-se um crédulo através de uma promessa reconfortante, pois a mente dele, diferente da do gambá, calcula o futuro com assombro.

É no mínimo muito irônico que justamente o cristianismo, cujos mais brilhantes pensadores teciam análises taxativas quanto ao instinto estúpido dos animais comparado à brilhante razão humana, estimulou historicamente uma moral de condicionamento.

A moral por dever (teísta) é um Behaviorismo anacrônico, pois usa para seus fins técnicas como aquelas usadas por Pavlov, Skinner, e outros. Esses condicionamentos morais se dão por reforços positivos (promessas de uma grande recompensa contanto que o indivíduo se comporte da forma desejada) e por reforços negativos (ameaças de punição e ostracismo). Os princípios de que depende são processos mentais primitivos, muitos dos quais se identificam com o que se chama de “instinto”.

Aí está a razão pela qual a moral religiosa (particularmente a ocidental) se identifica com os outros animais.
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Para um aprofundamento do tema e propostas de éticas diferentes da religiosa, bem como hipóteses de surgimento da moralidade humana, ver “Das questões morais” (parte 2 segundo o blog de Júnior Camilo, pois ele escreveu uma primeira parte sobre a moralidade na Bíblia).

  • E é um sistema tão fechado que “questionar” implica “ser punido”. Como fazer para se livrar disso, heim?

  • Eli, sou zoólogo, obviamente evolucionista, não sou religioso, muito menos dogmático, pelo contrário. Mas nem os mais conceituados cientistas têm uma teoria que explique completamente a origem da vida na Terra, mesmo depois de vidas inteiras dedicadas e isso. Temos certeza de como chegamos até aqui, mas sem muita certeza de como começou. Então, lendo e relendo seu blog todo, nada me foi acrescentado, exceto que você, do alto da sua experiência acadêmica (de 5 anos penso), acredita que a ciência já resolveu tudo que havia pra resolver e que sua empolgação com um novo mundo se mostrando diante dos seus olhos o faça imaginar que não há mais nada a ser feito. Isso está refletido nas suas palavras. Talvez daqui uma ou duas decadas você volte a ler suas “publicações” e perceba isso.
    Cuidado, pois o seu ar de “deslumbre” acadêmico pode trair suas convicções. Tentar imitar o estilo Dawkins não te torna detentor da verdade. Mesmo porque até o Dawkins é menos categórico nas afirmações da “verdade” do que você. Pelo menos tens contribuido para divulgar a evolução. Seria melhor ater-se a continuar copiando trechos de livros no blog, mas sem colocar suas idéias, seria muito mais palatável a leitura. Pode acabar não indo muito longe com essa soberba cultivada desde sua adolescência.
    abraços, Janael
    ps: não precisa aprovar o meu comentário. É melhor guardar pra você.

  • Caro Janael,

    obrigado pela atenção. Não é a primeira vez que alguém tenta diminuir meus argumentos com este caso especial de ad hominem de me diminuir pela minha idade e por minha inexperiência acadêmica.

    Só lamento que o senhor precise recorrer a mentiras, como me acusar de cientificismo, quando tudo o que você deveria ter feito para sanar suas “dúvidas” seria ler meu post intitulado “Apresentando o Grande Ininteligível”.

    Você está conversando com um cético que já afirmou neste blog que a maior parte das sensações, apesar de todo o progresso científico, é ininteligível.

    Se não sabe o que significa a palavra “ininteligível”, consulte o dicionário.

    Não é em cursos de Zoologia que ensinam essas coisas. Passar bem.

  • Anônimo

    Não saberia o que significa “ininteligível” por ser zoólogo?
    Não quero diminuir seus argumentos, que são muito bons e concordo com todos, fiz uma crítica ao estilo de escrita magnificiente. Há uma diferença nisso.
    Não foi a primeira vez e não será a última se não puder aceitar criticas. Criticas podem ser assimiladas e modeladas a seu favor, ou simplesmenete rebatidas, por aqueles que sobem no pedestal.
    att, Janael