3rd of September

Fundação Templeton – ignomínias durante o luto



John Templeton, pai da Fundação Templeton criticada por Richard Dawkins por ceder prêmios a cientistas dispostos a dizer “alguma coisa gentil sobre a religião”, morreu em 8 de julho de 2008 deixando um legado que foi homenageado por um editorial da edição da revista científica Nature do mesmo mês.

Templeton era um cristão milionário com interesse em ciência, por isso criou uma fundação para testar cientificamente algumas de suas crenças.

A Fundação Templeton patrocinou, por exemplo, um famoso estudo (o maior até hoje) sobre o poder da oração intercessória para 1802 pacientes cardíacos que passaram por cirurgia de ponte coronariana distribuídos em seis hospitais dos EUA. Eis a conclusão do estudo:

“A oração intercessória em si não teve efeito na recuperação livre de complicações, mas a certeza [do paciente] de estar recebendo oração intercessória foi associada a uma maior incidência de complicações.”

Ou seja, quem sabia que estava recebendo oração piorou.

__

O editorial da Nature em homenagem a Templeton, publicado em 16 de julho, diz que seu trabalho tem como mérito a “tolerância”, e conclui com concessões leves à “espiritualidade” numa atitude parecida com a de Stephen Jay Gould.

Em 28 de agosto, a Nature publicou em sua seção de cartas uma resposta a este editorial, escrita por dois pesquisadores de áreas da Biologia – Matthew Cobb (da Universidade de Manchester, Reino Unido) e Jerry Coyne (Universidade de Chicago, EUA), que traduzo a seguir:

“SENHOR – Ficamos perplexos com seu Editorial sobre o trabalho da Fundação Templeton (‘Templeton’s legacy’ Nature 454, 253–254; 2008). Com certeza ciência é sobre encontrar explicações materiais para o mundo – explicações que podem inspirar aqueles sentimentos de assombro, maravilhamento e reverência no hiper-evoluído cérebro humano. A religião, por outro lado, é sobre humanos pensando que assombro, maravilhamento e reverência são a pista para entender um Universo construído por Deus. (O mesmo é verdade para a prima pobre da religião, a ‘espiritualidade’, a qual você introduziu no seu Editorial da forma como um criacionista usa o ‘design inteligente’.) Há um conflito fundamental aqui, um que pode nunca ser reconciliado até que todas as religiões parem de fazer alegações sobre a natureza da realidade. O estudo científico da religião é de fato cheio de grandes questões com as quais precisa lidar, tais como por que a crença na religião é correlacionada negativamente à aceitação da evolução. Poderia-se considerar estudos psicológicos sobre por que humanos são supersticiosos e acreditam em coisas impossíveis, e estudos sociológicos comparativos da religião usando explicações materialistas para a ascenção e queda dos sistemas de crença do mundo. Talvez a Fundação Templeton esteja pensando em financiar tais pesquisas. O resultado de tal trabalho, nós prevemos, não trará a ciência ou a religão (ou ‘espiritualidade’) para mais perto uma da outra. Você sugere que a ciência pode trazer “avanços no pensamento teológico”. Na realidade, a única contribuição que a ciência pode fazer para as idéias da religião é o ateísmo.”

  • É Eli,

    Ler este seu último texto mostra o quanto nossas mentes estão operando “na mesma freqüência”. Justamente depois de ler uma matéria sobre o ganhador do Prêmio Templeton deste ano (2008) — um padre e matemático escocês que embolsou uma grana preta por um modelo matemático que se propõe a “provar indiretamente” a existência de Deus — eu fiquei pensando que deveria escrever algo sobre essa fundação.

    Foi com alegria que encontrei seu texto, portanto. Finalmente, desde Deus, um Delírio, alguém escreve algo crítico sobre esse fundo de incentivo à promoção da bizarra proposta de casamento entre a razão científica e a ignorância religiosa.

    Parabéns pelo texto, meu brother!

    ~ Júnior Camilo.

    PS.: Sempre que vejo alguns criacionistas defenderem umas hipóteses um tanto estapafúrdias, fico imaginando por que eles ainda não “paparam” um Templeton, já que seu argumento é tão persuasivo. Será que nem os crentes da fundação, desesperados para premiarem qualquer besteira do gênero, essas hipóteses dão conta de convencer, não?