20th of May

Livre arbítrio?


por Leonie Welberg”A questão sobre os humanos terem livre arbítrio tem sido discutida por séculos por filósofos e acadêmicos religiosos, e mais recentemente por neurocientistas. Haynes e seus colaboradores adicionaram lenha ao debate mostrando que a atividade em duas áreas corticais não relacionadas a movimento pode predizer o resultado de uma decisão motora em até 10 segundos antes que um indivíduo se torne consciente da decisão.

Voluntários foram postos num scanner de ressonância magnética funcional e foi pedido a eles que pressionassem um botão com o dedo indicador direito ou esquerdo quando quisessem. Ao longo do experimento os voluntários olharam para uma tela que mostrava uma sucessão de letras, e eles tinham que se lembrar da letra que foi apresentada na tela no momento em que decidiram qual botão apertar. Isso revelou que a maioria das decisões eram conscientemente formadas um segundo antes que a resposta motora fosse executada.

Então, os autores analisaram a atividade em diferentes áreas do cérebro durante o tempo precedente ao pressionamento do botão, usando decodificadores baseados em padrão. Esse tipo de análise pode detectar padrões-‘assinatura’ de atividade que estão associados com uma decisão particular. Os autores acharam tais padrões de atividade na área 10 de Brodmann no córtex parietal (o córtex cingulado pré-cúneo/posterior) – áreas que acredita-se serem envolvidas em função executora e auto-processamento – e os padrões previam com alta precisão qual botão seria apertado. Intrigantemente, as assinaturas apareceram até 7 segundos antes que os voluntários escolhessem conscientemente sua resposta motora. Pela razão de que acredita-se que a resposta hemodinâmica dependente de nível de oxigênio no sangue representa a atividade neuronal ocorrida por volta de 3 segundos antes, esta descoberta sugere que a atividade nas duas áreas codifica as decisões aproximadamente 10 segundos antes que elas entrem na consciência.

Padrões de atividade que foram observados na área motora suplementar e pré-suplementar aproximadamente 5 segundos antes de uma decisão ser consciente predisse seu compasso (timing), indicando que áreas cerebrais diferentes poderiam estar envolvidas na formação da intenção de fazer um movimento e na decisão de quando fazê-lo.
Embora seja difícil imaginar que nossas decisões possam ser feitas inconscientemente, essas descobertas têm implicações importantes. As pessoas podem ser responsabilizadas por suas ações se elas não se tornam conscientes de suas decisões até que elas sejam feitas? Você decide.”***Publicado originalmente em Nature Reviews – Neuroscience._O filósofo Daniel Dennett concebeu uma hipótese para o funcionamento da consciência, que pode ser lida nos livros “A perigosa idéia de Darwin” e “Consciousness Explained”.

  • Oi, Eli.

    Intrigante, o texto. Afinal, é no mínimo curiosa a idéia de que uma decisão consciente já havia sido anterior e inconscientemente tomada…

    Costumo brincar, dizendo que o homem tem, sim, livre arbítrio – até certo ponto.

    Esse experimento descrito no texto é um elemento a mais na discussão.

    Em tempo: eu e alguns amigos decidimos criar um blog sobre Patos de Minas. A idéia é dar um tratamento mais crítico ao que ocorre por aqui, seja algo bom ou ruim. Quando tiver um tempinho, confira em http://marrecospaturebas.blogspot.com/

    Valeu.

  • “As pessoas podem ser responsabilizadas por suas ações se elas não se tornam conscientes de suas decisões até que elas sejam feitas? Você decide.”

    Não sei se concordei com a última colocação. Porque, embora não me seja estranha a idéia de que nossas decisões sejam tomadas antes de termos consciência delas, praticá-las ou não vai depender de um outro mecanismo. Tudo bem que o teste pode ter mostrado que as execuções motoras já tinham sido preditas, mas, em algumas situações (mais complexas, talvez), a reflexão (consciente, no caso) ou o medo podem frear a execução da decisão, ou até mesmo fazer com que o sujeito tome uma outra decisão (ainda que ela seja forjada por mecanismos inconscientes).
    No mais, não acho que o sujeito perca sua responsabilidade por conta do que foi colocado. Se assim fosse, a melhor desculpa dos criminosos seria: “Não tive culpa: meu cérebro decidiu sem o meu consentimento!” — que é até redundante.

    Mas o experimento é mesmo muito interessante!