3rd of May

Comunicação no mundo natural


Uma amiga me fez uma pergunta: “qual seria a primeira espécie a ter comunicação no planeta para você?”

Antes da resposta, precisarei de definições de trabalho que tive em mente ao responder:

1 – Comunicação é a troca de informação entre um emissor e um receptor, quaisquer que sejam essas duas entidades.

2 – Informação será definida como quantidade de “dados” (suas unidades mínimas), e dependerá da natureza da produção e leitura desses dados no emissor e no receptor. Ou seja, informação só pode ser entendida como pertencente a um sistema, um conjunto, uma população, e não faz sentido fora desse contexto.

Dadas essas definições de trabalho, vamos à resposta.

Entre células, por exemplo, existe comunicação. Uma molécula se liga a outra e provoca reações químicas – basicamente é isso. E eu acho que ainda é essa a base de todo e qualquer tipo de comunicação, aliás estou bem convicto disso (dadas as devidas correções – às vezes é uma propriedade física, como onda mecânica, fótons, que interagem com as moléculas orgânicas).

Mas quando complicamos as coisas, com sistemas nervosos, cérebros, é dificílimo detectar quando surgiu a comunicação que seria a forma mais primitiva da fala.

Em outros mamíferos, até aqueles dotados de pequenos cérebros, como os suricatos, a comunicação é bem clara, tem vocalização, e no caso dos suricatos uma vocalização diferente para cada significado: por exemplo, um certo grito significa um certo predador.

Esse tipo de comunicação deve ter algumas dezenas de milhões de anos (se foi assim também que acontecia nos primeiros primatas).

É claro que a fala como a conhecemos deve ter só entre 100 mil e 200 mil anos, e ainda não sabemos se outras espécies, como o homem de neandertal, a tinham.

A natureza, como sempre, manifesta gradações diversas, e há diferenças importantes entre espécies solitárias e espécies sociais ou gregárias. Cefalópodos como as lulas Sepiotheutis sepioidea, estas sociais, se comunicam por padrões de cores na pele. Mas também tem polvos solitários que são bem comunicativos, mas nesse caso a comunicação é direcionada a outras espécies, como o polvo mímico (Thaumoctopus mimicus) faz com possíveis predadores (Vídeo).

Então, a minha resposta não vai ser nem um pouco decisiva. A primeira espécie a ter comunicação bioquímica deve ter existido há mais de 3 bilhões de anos e era uma bactéria.

E a primeira espécie a ter comunicação dependente de um sistema nervoso deve ter existido há 500 milhões de anos, na “explosão” Cambriana, e possivelmente nem era um de nossos ancestrais. E esse tipo de comunicação deve ter surgido várias vezes, até mais vezes que a comunicação puramente bioquímica.

Existem muitos outros exemplos, como a comunicação entre cetáceos – baleias e golfinhos -, aves, lagartixas, crocodilos, cigarras, grilos, moscas (a drosófila, por exemplo, emite um “canto” vibrando as asas durante o ritual de acasalamento – e isso também acontece com mosquitos), besouros…

A fala surgiu quando a já existente emissão de som dos primatas foi unida a um cérebro cada vez mais complexo, capaz de representar o mundo em si mesmo, capaz de prever e analisar o comportamento de outros cérebros, capaz de executar experimentos mentais a partir da memória.
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Sugestão Bibliográfica: livro “O Instinto da Lingagem“, de Steven Pinker.

  • Eli, a pergunta de sua amiga é instigante, assim como sua resposta como biólogo.

    Certa vez, numa palestra aqui em Patos de Minas, um estudioso discorreu sobre o surgimento da fala em humanos. Segundo ele – e levando-se sempre em conta que a evolução se dá em contas que envolvem milhões e milhões de anos – o ser humano começou a falar, por assim dizer, de uma hora para outra. Segundo ele, essa “rapidez” (em termos evolutivos) é um dos “mistérios” mais fascinantes para ciências como neurolingüística, a biologia e mesmo a antropologia.

    Não tenho conhecimento desse terreno, mas quando saio para fotografar aves e pássaros na natureza, é sempre gratificante acompanhar a comunicação entre eles.

  • “Quem” vem primeiro: a linguagem ou a consciência? Eis uma questão onde não há consenso na Psicologia. Mas eu acredito muito que seja a consciência (lembrando que estou considerando a linguagem falada, mais especificamente a do ser humano), e concordando com António Damásio.
    A comunicação simples que você citou, aquela entre células, é algo interessante que já havia passado por meus pensamentos. Agora, só é considerado comunicação quando a “troca química” é efetuada entre dois ou mais entes da mesma espécie?
    Grande abraço!