22nd of April

O mágico e o pedreiro


Em minha infância na cidade de Lagamar, aconteceram coisas mágicas que aquecem minhas memórias com uma sensação de conforto, saudade, e graça até.

Certa vez apareceu na cidade um circo, e junto dele veio um mágico sinistro. Ele tinha algum truque com uma vassoura encantada que se mexia sozinha e espantava as crianças com aquele terror primitivo – que agora me parece ter sido muito bom (como é bom para muitas pessoas assitir filmes de conteúdo destinado a provocar medo e susto).

Surgiu na cidade o boato de que o mágico compactuava com o demônio. Uma amiga das minhas irmãs mais velhas participou de um truque em que o ilusionista adivinhava o conteúdo de cartas lacradas; na carta dessa amiga a própria escreveu “Deus é amor”, e me contaram que esta frase desconcertou as habilidades mágicas do sinistro artista (talvez ele tenha até se assustado como um vampiro diante de um crucifixo).

Quem sou eu para estragar essas memórias acusando superstição e irracionalidade?
A mágica e o mistério fazem parte da infância.

Mas agora, se eu perdi essas sensações dramáticas, fervilhantes, e, por assim dizer, cinematográficas, o que tive a ganhar tem outro tipo de valor inestimável: é aquele valor do pedreiro que pacientemente constrói um abrigo sólido e seguro. Destruí aquele terror que me encantava quando criança, mas também me tinha como refém nas horas de desespero.

Era espetacular ouvir que dentro do redemoinho vivia um capeta que viria atrás de nós se recitássemos “pé de pato, pé de vento, vem aqui que eu pulo dentro”. E recitávamos, corríamos atrás do fenômeno atmosférico até que ele saltasse do penhasco, e ascendesse aos céus levando consigo algumas folhas rodopiantes que denunciavam sua existência até o derradeiro momento.

Agora, troquei o redemoinho por cada segundo que se atira ao nunca mais, e os mistérios são outros, como a própria natureza do tempo, mas não me causam mais aquele terror de desespero, mas reavivam o terror de júbilo daquelas mágicas.

O circo se foi, se atirou ao olvido de muitos que lá estiveram, e hoje, no mesmo lugar, se encontra um sólido ginásio poliesportivo.

Ginásio Poliesportivo da cidade de Lagamar, Minas Gerais.
  • Eli, seu texto tem um tom de crônica, coisa que eu ainda não havia visto você escrever.

    Curioso, você dizer que perdeu a conexão com aquele lado supersticioso, afirmando que “agora os mistérios são outros”. É que essas suas reflexões me remetem a algo muito pessoal; assim, releve eu falar mais de mim em vez de comentar com exatidão o mérito de seu texto.

    Penso em, de algum modo, dar vazão, por intermédio das palavras, ao mundo mágico da infância. Ainda não achei o tom – nem sei se vou achar.

    Há um livro que tenho há tempos e que ainda não li por completo. Não há edição em português. O título é “The encyclopedia of things that never were”, de Michael Page e Robert Ingpen (não há edição em português). Claro que o livro diz respeito ao reino do mítico, do lendário, supersticioso… A obra é dividida em verbetes; já li vários. É um dos melhores livros com os quais já tive contato. Não somente pelo primor do texto e das ilustrações, mas também por me remeter ao mundo da infância, que é supersticioso, lendário, mítico…

    Parece-me que o adulto precisa visitar esse mundo. Eu, pelo menos, sei que preciso visitá-lo e trazê-lo à tona. O que sinto é que apesar de minhas tentativas de racionalização permanece em mim aquele mundo infantil e possível. Como adulto, preciso agora descobrir o que fazer com esse mundo.

    Parabéns pelo seu texto.

  • O tempo é uma das coisas que me dão mais medo! Mas é um medo gostoso que provoca meu interesse e minha imaginação… Já não é um mistério infantil — ainda que sejamos imaturos demais para compreendê-lo.

  • Manoel Almeida

    Eli, será que a infância das crianças de hoje, cercada de informações e tecnologias, ainda preserva a mesma magia de outrora? Temo que não, infelizmente! Daí a importância de textos como esse. Um forte abraço!

  • Quando na infância vamos tomando consciência da realidade muitas dúvidas nos assolam. A origem das coisas por exemplo. E concomitantemente muitas explicações nos são dadas, principalmente pelos nossos cuidadores. Vejo sempre que há uma tendência dos pais em darem explicações fantasiosas sobre a origem das coisas. De onde vem a chuva? De onde vem os bebês? E algumas pessoas dão as mesmas explicações fantasiosas. Propunho a seguinte questão: Até onde a fantasia é saudável, já que em determinado momento essa criança vai crescer e se deparar com realidades?