1st of April

Quem mudou a Bíblia e por que? As respostas surpreendentes de Bart D. Ehrman


Por Erich Vieth, originalmente publicado em 22 de outubro de 2006 em Dangerous Intersection.

“Com que freqüência ouvimos pessoas “explicando” crenças religiosas dizendo que “está na Bíblia”, como se a Bíblia tivesse caído do céu, pré-traduzida para o inglês [ou português] pelo próprio Deus? Não é assim tão simples, de acordo com um livro impressionante escrito com clareza que deveria ser leitura obrigatória para qualquer um que alega conhecer “o que diz a Bíblia”. O best-seller de 2005 O que Jesus disse? O que Jesus não disse?, não foi escrito por um ateu barulhento. Pelo contrário, foi escrito por um camarada que teve uma experiência de renascimento [como cristão renascido] no ensino médio, e então continuou a freqüentar o ultraconservador Instituto Moody Bible em Chicago. Bart Ehrman não parou por aí, entretanto. Ele queria se tornar uma voz evangélica com credenciais que o permitiriam ensinar em instituições seculares. Foi por essa razão que continuou sua educação em Wheaton e, finalmente, Princeton, adquirindo a habilidade de ler o Novo Testamento em grego no processo.
Como resultado de seu estudo disciplinado, Ehrman cada vez mais questionou a abordagem fundamentalista que diz que a “Bíblia é a perfeita Palavra de Deus. Não contém nenhum erro.” Através de seus estudos, Ehrman determinou que a Bíblia não era livre de erros:

Temos apenas cópias cheias de erros, e a vasta maioria delas foram afastadas há séculos dos originais e diferem deles, evidentemente, em milhares de maneiras. (Página 7*).

Em Princeton, Ehrman descobriu que os erros tinham sido feitos durante a cópia do Novo Testamento através dos séculos. Nesta descoberta, “as comportas se abriram.” Em Marcos 4, por exemplo, Jesus supostamente disse que a semente de mostarda é “a menor de todas as sementes que há na terra”. Ehrman sabia que isso simplesmente não era verdade. Quanto mais ele estudava os manuscritos antigos, mais ele percebia que a Bíblia era cheia de contradições. Por exemplo, Marcos escreve que Jesus foi crucificado no dia após a refeição da páscoa judaica (Marcos 14:12; 15:25) enquanto João diz que Jesus morreu no dia anterior à refeição da páscoa judaica (João 19:14).
Ehrman ouviu muitas vezes que as palavras da Bíblia tinham sido inspiradas. Obviamente, a Bíblia não foi originalmente escrita em inglês. Talvez, sugere Ehrman, o significado total e nuances do Novo Testamento só poderiam ser compreendidos quando fosse lido em seu grego original (e o Velho Testamento só poderia ser inteiramente apreciado quando estudado em seu hebreu original).(página 6*)
Por causa dessas barreiras lingüísticas e os inegáveis erros e contradições, Ehrman percebeu que a Bíblia não poderia ser “totalmente inspirada, perfeita Palavra de Deus.” Em vez disso, parecia ser para ele um “livro muito humano”. Autores humanos tinham escrito originalmente o texto em tempos diferentes e em lugares diferentes para se referirem a necessidades diferentes. Certamente, a Bíblia não fornece um “guia sobre como devemos viver. Esta é a mudança no meu próprio pensamento que acabei fazendo, e com a qual estou agora completamente comprometido”.

Quão difundida é a crença de que a Bíblia é infalível, que cada palavra da Bíblia é precisa e verdadeira?

Ocasionalmente eu vejo um adesivo que diz “Deus disse assim, eu acredito, e está tudo resolvido.” Minha resposta é sempre: e se Deus não disse? E se o livro que você toma como se lhe desse as palavras de Deus contém na verdade palavras humanas. E se a Bíblia não é infalível em dar uma resposta para as questões da era moderna – aborto, direitos da mulher, direitos dos gays, religiosos e de supremacia, democracia no estilo ocidental e afins? E se nós tivermos de descobrir sozinhos como viver e no que acreditar, sem estabelecer a Bíblia como um falso ídolo – ou um oráculo que nos dá uma linha direta de comunicação com o Todo Poderoso. (Página 14*)

Ehrman continua a apreciar a Bíblia como uma importante coleção de escritos, mas enfatiza que ela deve ser lida e entendida no contexto da crítica textual, “um atraente e intrigante campo de estudos de real importância não só para os estudiosos, mas para todas as pessoas com interesse na Bíblia.” Ehrman acha assustador que a maioria dos leitores da Bíblia não sabe quase nada sobre crítica textual. Comenta que não é surpreendente, dado que há pouquíssimos livros sobre crítica textual escritos para leigos (ou seja, “aqueles que não sabem nada a respeito, que não têm o grego ou outras línguas necessárias para o estudo aprofundado [da Bíblia], nem mesmo percebem que há qualquer “problema” com o texto”).(Página 14*)
O que Jesus disse? O que Jesus não disse? fornece muitas bases para como a Bíblia se tornou a Bíblia. Isso aconteceu através de numerosas decisões humanas pelos séculos. Por exemplo, a primeira vez que algum cristão conhecido listou os 27 livros do Novo Testamento como os livros do Novo Testamento foi 300 anos depois de os livros terem sido escritos (página 36*). E aqueles trabalhos foram radicalmente alterados ao longo dos anos nas mãos de escribas “que estavam não apenas conservando a escritura mas também mudando-a”. Ehrman aponta que a maior parte das centenas de milhares de mudanças textuais achadas entre os manuscritos foram “completamente insignificantes, não-substanciais, de nenhuma importância real.” Em resumo, foram erros inocentes envolvendo inadvertência e erros de ortografia.
Por outro lado, o próprio significado do texto mudou em alguns exemplos. Alguns estudiosos da Bíblia chegaram a concluir que não faz sentido falar no texto “original” da Bíblia (página 210*). Como resultado de estudo dos manuscritos em grego que sobraram do Novo Testamento, Ehrman concluiu que nós simplesmente não temos palavras originais constituindo o Novo Testamento.

Nós não apenas não temos os originais, não temos as primeiras cópias dos originais. Não temos nem mesmo as cópias das cópias dos originais, ou cópias das cópias das cópias dos originais. O que temos são cópias feitas muito mais tarde. Na maioria dos exemplos, são cópias feitas muitos séculos depois. E todas essas cópias diferem uma da outra, e muitos milhares de lugares… Possivelmente é mais fácil colocar em termos comparativos: há mais diferenças entre nossos manuscritos que palavras no Novo Testamento.

Em O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Bart Ehrman esmiúça os modos em que várias passagens críticas do Novo Testamento foram mudadas ou fabricadas. São exemplos surpreendentes:A) Todos sabem a história sobre Jesus e a mulher prestes a ser apedrejada pela multidão. Este relato é apenas encontrado em João 7:53-8:12. O povo perguntou a Jesus se deveria apedrejar a mulher (a punição recomendada pelo Velho Testamento) ou ter misericórdia dela. Jesus não cai nesta armadilha. Jesus supostamente diz “aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela”. O grupo se dissipa com vergonha. Ehrman afirma que essa história brilhante não estava originalmente no Evangelho de João ou em qualquer outro evangelho. “Foi acrescentada por escribas posteriores.” A história não é encontrada em “nossos melhores e mais velhos manuscritos do Evangelho de João. Nem é este estilo de escrita compatível com o resto de João. Os mais sérios críticos textuais afirmam que essa estória não deveria ser considerada parte da Bíblia (página 65*).
B) Depois da morte de Jesus, Maria Madalena e duas outras mulheres voltaram à tumba para ungir o corpo de Jesus, de acordo com Marcos 16:1-2. Elas se encontraram com um homem de vestes brancas que disse a elas que Jesus havia se erguido e não mais se encontrava lá. As mulheres fugiram e não disseram nada mais para ninguém por medo (16:4-8). Todos sabem o resto do Evangelho de Marcos, é claro. O problema com o resto da história é que não estava originalmente no Evangelho de Marcos. Foi adicionado posteriormente por um escriba. Os acréscimos incluem todos os seguintes:
Jesus em pessoa apareceu para Maria Madalena. Ela contou aos onze apóstolos (menos Judas) sobre essa visão, mas eles não acreditaram nela. Então Jesus apareceu para os apóstolos, repreendendo-os por não conseguirem acreditar. Ele diz a eles que aqueles que acreditam serão salvos e aqueles que não acreditam serão condenados. Segue então uma passagem criticamente importante da Bíblia.

17 E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas;
18 Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.

E então Jesus supostamente ascende aos céus e se senta à direita de Deus, enquanto os discípulos saem pelo mundo para proclamar o Evangelho de maneira miraculosa.Sem as passagens acima (que, denovo, não foram escritas por Marcos) os Pentecostais perdem sua justificativa para falar em “línguas.” E os manipuladores de serpentes dos Apalaches não têm bases para suas práticas perigosas.
C) João 5:7-8 [na versão da Bíblia do Rei James, ausente nas versões mais usadas no Brasil] é a única passagem em toda a Bíblia “que delineia explicitamente a doutrina da Trindade” (que há três pessoas e Deus mas todas as três constituem um Deus uno):

Há três que prestam testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito e esses três são um; e há três que prestam testemunho na terra, o espírito, a água, e o sangue, e esses três são um.

Ehrman cita fortes evidências de que essa passagem da Trindade foi totalmente fabricada e ludibriou Erasmo por teólogos ofendidos que precisavam de apoio para sua preciosa doutrina teológica (página 81*).
– Ehrman revela outras dificuldades numerosas com a suposição popular de que a Bíblia foi transmitida perfeitamente a partir da sua versão escrita original.
Muitos crentes confiam fervorosamente na versão do Rei James da Bíblia, por exemplo. Às vezes dizem até que “Se o Rei James foi suficientemente bom para São Paulo, é bom para mim.” Ehrman aponta muitos problemas com a versão do Rei James, advertindo que “precisamos encarar os fatos”.

A [versão do] Rei James não foi entregue por Deus, na verdade foi uma tradução de um grupo de eruditos no começo do século XVII que basearam sua versão num texto grego defeituoso.(página 209*)

Então o que deveriamos fazer da Bíblia? Ehrman argumenta que as partes do Novo Testamento não são apenas coleções de palavras óbvias, auto-interpretáveis. É o mesmo problema que temos com outros documentos importantes, como a constituição.

Os textos não revelam simplesmente seus próprios significados para investigadores honestos. Textos se interpretam, e são interpretados (assim como foram escritos) por seres humanos que vivem e respiram, que entendem os textos apenas os explicando à luz de outros conhecimentos, explicitando seu significado, colocando as palavras do texto “em outras palavras”. (página 217*)

Os escribas mudaram as palavras originais do Novo Testamento colocando-as em outras palavras. Em minha experiência, muitas pessoas que selecionam o que lhes agrada nos trechos da Bíblia para determinar o que é moral estão negando completamente que não temos cópias exatas dos escritos originais. A maioria dessas pessoas se recusam a reconhecer que versões populares atuais da Bíblia contêm inúmeras discrepâncias, mesmo quando comparadas aos manuscritos mais antigos que de fato temos. E sem contar que há centenas de contradições patentes na versão em inglês da Bíblia [e nas versões em português também]. Para a maioria dos crentes, nada disso importa. Mantenham a rota! Na verdade, na minha experiência a maioria dos crentes raramente lêem o que consideram ser a palavra inspirada de Deus.
O livro de Ehrman mostra numerosos pontos problemáticos que demandam atenção mesmo assumindo que os escritores originais da Bíblia relataram precisamente os eventos descritos em seus escritos originais (quaisquer que sejam esses escritos). O elefante na sala, entretanto, é que nenhum dos autores dos Evangelhos jamais alegou ter presenciado qualquer evento que relatam. Além disso, a natureza extraordinária das alegações da Bíblia demanda provas extraordinárias que textos antigos auto-contraditórios são simplesmente incapazes de fornecer, exceto para aqueles de nós que acreditam que a Bíblia é completamente verdadeira “porque a Bíblia diz que é”.
Para todas as pessoas que continuam por aí agarrando e brandindo as Bíblias que compraram no Wal-Mart, e para o resto de nós que quer entender a história direito, O que Jesus disse? O que Jesus não disse? de Bart Ehrman deveria ser leitura obrigatória.”___
*Números de páginas se referem à edição em inglês.

  • Interessantíssimo! Tô até achando que vou comprar esse livro.
    Bom texto!

  • O curioso é que o crente teve que estudar a fundo a bíblia durante anos a fio para descobrir o que um cético como eu já sabia desde os 10 anos de idade…

  • Anônimo

    Muito bom Eli, vou guardar o texto
    como referência, mas só uma coisinha: Eu não respeito a fé religiosa e nem as crenças advindas daí. Eu respeito é o direito das pessoas terem essas crenças. Um abraço , Jamil

  • Anônimo

    Oi
    Sempre tive essa duvida na cabeça,sera que alguem nao teria mudado abiblia, claro que sim, prq?
    para obter poder e conceguir fazer com que as pessoas fizessem o que queriam,estou louco para ler este livro.
    Me desculpem os erros de portugues

  • Anônimo

    Ai! Ai! Ai!…Esse cara estudou tanto que só fala bobagens….

  • nasci no cristianismo, sou rodeado de cristões que adoram bisbilhotar e fiscalizar a minha vida não no sentido de fazer coisa errada, o que quero dizer é que eles rezam pra ter uma pessoa como eu ao lado deles adorando uma coisa que não existe, uma coisa que ja suspeitava a muito tempo que foi manipulada como descrito acima, graças a word wide web, eu pude encontrar tudo que ja suspeitava, existe até uma historia que diz que "Jesus não morreu na cruz" ou seja se ele não morreu ele não precisou ressussitar, no final de tudo Jesus deu golpe do baú, e se tornou o cara mais conhecido da historia, e viveu no kashemir na india até sua velhice deixando decendentes do seu sangue, ai seis sabem neh blah blah blah…

    Vo fala negocio, religião ta com os dias contados, é que esse povo ai ainda obrigam as suas criancinhas a frequentarem esses cultos religiosos, e é nessas horas que eles entopem a cabeça delas de porcariada e o principal de tudo MEDO, a ferramenta mais utilizada entre ele…

    Sem mais…

  • A crença na Biblia como fonte literal de verdade se desmorona a luz de questões como: "Houve um devir na história da biblia, de tal modo, q seus vesiculos e supostos relatos tenham sido forchados, manipulados por pretenciosos autores?"

    Sobre Jesus, eu creio q ele não precisou existir de fato para ser um horizonte e os pilares da moral cristã. Ele é a metafora q justifica a crença critã e a tornou unviersal para muitas pessoas ao longo da história. A possibilidade de alguem (como São Paulo, sugerido por Nietzsche) tenha inventado essa metafora não é vil ou absurda. É mais verosimil do q a crença q aquilo é a verdade absoluta, mesmo q eu não precise provar ou demonstrar isso.

    Vemos q a preocupação daqueles q escreveram a bilbia foi q ela fosse coerente com o velho testameto e não com os fatos históricos. Considerar a biblia como uma fonte histórica é no minimo algo insensato…