4th of March

Memética com refri e fritas


No último capítulo do livro “O Gene Egoísta” de Richard Dawkins, um conceito importante é introduzido: o meme.

O termo meme surgiu como uma analogia ao gene. Da mesma forma que o gene seria a unidade mais básica da informação do DNA, acumulada durante 3,8 bilhões de anos de descendência com modificação dos seres vivos terrestres, o meme seria a unidade replicante básica da cultura. Cultura pode ser vista como o conjunto de informações que não estão presentes no DNA e são passadas através de aprendizado, e se encontram armazenadas na memória ontogenética dos cérebros, nos livros, nos sites, nos artefatos de engenharia, etc.

A Biologia Molecular sabe muitas coisas sobre um gene: que seqüências de nucleotídeos indicam onde começa e termina, e onde será cortado (editado) caso o ser vivo seja dotado do tal “Splicing Alternativo”, como o gene é transcrito para RNA e traduzido na seqüência de aminoácidos, etc.

As neurociências não têm ainda tanto a dizer sobre unidades de memória ontogenética. Sabemos que órgãos e comportamentos estão ligados à memória: hipotálamo e hipocampo são centros de organização e armazenamento, o sono é uma sucessão de eventos de consolidação.

Obviamente, não se pode apontar ainda o que exatamente na memória corresponde aos memes. Mas a Memética ajuda a elucidar a evolução das culturas assim como a Genética elucida a evolução biológica. Se a segunda pode ser entendida como a alteração na freqüência de genes através das gerações, a primeira pode ser entendida como a alteração na frequência de memes através do tempo (com nível substancial, mas não obrigatório, de hereditariedade).

O meme pode ser definido como uma idéia, um hábito, um “algoritmo” artificialmente construído, uma forma de pronúncia, e seu conjunto pode ser visto como blocos sustentados sobre bases que já possuímos.

Por exemplo, Noam Chomsky propõe um “órgão da linguagem” inato que consiste em nossa predisposição a falar. Alguns experimentos, como o do faraó Psamético I relatado por Heródoto, poderiam mostrar como uma língua nasce a partir de um conjunto de seres humanos que nunca tiveram contato com nenhuma outra língua. O “órgão da linguagem” não seria constituído por memes, mas por genes. Alguns genes, como o Foxp2, foram associados à linguagem.
Sobre a base do órgão da linguagem é que se sustentam os memes da língua, que dependem de aprendizado e conhecimento acumulado na cultura: como chamar um alimento rico em amido de trigo de “pão” ou “bekos” (como relatado do experimento do faraó).

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A Filologia já trabalha com a hipótese memética (sob outras designações) há tempo.
Antropólogos, por exemplo, usam palavras similares de várias línguas para dizer se há uma língua ancestral comum entre elas, e, por conseguinte, uma cultura ancestral comum entre as culturas que apresentam essas línguas.

E isso corresponde muitas vezes ao padrão de distribuição de populações humanas previsto por análises biológicas (biogeográficas).
Por exemplo, em 2007 foi publicado um artigo de Kumar e colaboradores mostrando similaridades genéticas entre populações asiáticas falantes das línguas da família lingüística austro-asiática.

O meme se replica usando mentes, assim como um vírus só se replica usando o metabolismo de uma célula. Os genes do vírus, assim como um gene isolado no genoma humano, não se replicam por si mesmos – a partícula viral solitária, mesmo num ambiente rico em nutrientes biológicos, é inerte, diferente de uma célula bacteriana. (O modo como os genes passaram a ser, em conjunto, verdadeiramente auto-replicantes, é uma questão a ser respondida no contexto da origem da vida.)

Memes, assim como genes, também podem se extinguir: toda a língua da cultura Xi Xia, destruída por Gêngis Khan, bem como o modo como se lêem suas escrituras, como se pronunciam seus signos, são exemplos de memes extintos.
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História e exemplos

Uma parte fundamental dos memes tem origem há cerca de 150 a 200 mil anos na África, junto com o surgimento do Homo sapiens. Alguns dos memes são muito antigos, como vestir roupas (data do Pleistoceno), e o uso de ferramentas, enquanto outros são muito recentes, como gritar “ah eu tô maluco!” no estádio de futebol (este último tem caído vertiginosamente no pool mêmico nos últimos cinco anos).

É possível traçar esboços de clados de memes lingüísticos, melhor ainda, de etimologia das palavras (dado que é difícil saber o quanto mudou o significado por trás do termo).

Por exemplo, a palavra do inglês contemporâneo thwart (atravessar, barrar, frustrar).

Segundo o site YourDictionary.com, thwart tem origem na língua germânica comum. Talvez impossível saber que forma tinha inicialmente.

Mas os descendentes do ancestral comum da palavra thwart se encontram em todas as línguas germânicas (definições em inglês entre parênteses).
No alemão, zwerch. (“athwart”)
No norueguês, tvers. (“over”)
No sueco, tvär. (“crossways”)
No dinamarquês, tværs.(“across”)

Com um estudo mais aprofundado, talvez seja possível para o filologista traçar como cada uma dessas formas se aparenta com outras, e é proposto também que essas palavras compartilhem parentesco com o torquere do latim (contorcer), que teria nos dado também palavras da raiz de tortuoso.

Por mais imprecisas que sejam essas hipóteses, a idéia principal é que isso mostra como os memes evoluem com o passar das gerações.

Como pode acontecer também com genes, nem sempre a forma encontrada numa dada população é fruto de seleção.

Tvär é tão bom quanto tværs, o mesmo pode ser dito quanto às diferenças quanto ao uso e significado dessas palavras. A explicação mais parcimoniosa é que essas formas se encontram como são hoje em suas respectivas línguas porque houve DERIVA do meme – estão aí por fatores estocásticos, resultantes de aleatoriedade.

A hipótese de deriva diz que a palavra (ou o meme) se encontra como está porque

1 – Os fundadores da primeira população falante da língua em questão (por exemplo, o norueguês) pronunciavam “por acaso” essa palavra de um modo um pouco diferente de como costumava ser pronunciada na cultura de seus pais. Isso é o efeito do fundador. (Pensem em como se pronuncia a letra R em “porta” dependendo da região do Brasil.)Esse modo de pronúncia já direcionou mudanças com o passar das gerações de modo à palavra atual ser tvers.

2 – Dentro da população que falava a língua germânica comum, outros modos de pronúncia foram desaparecendo, porque as pessoas que os usavam não tinham muita visibilidade social. Permaneceu a pronúncia mais usada na primeira população da Noruega e esta se assemelhava mais a tvers. Isso é o efeito do gargalo de garrafa (bottlenecking).(Pensem em como é considerado “deselegante” que apresentadores de telejornal pronunciem poRRta como se faz no interior de São Paulo e em Uberlândia.)

A diferença entre os dois efeitos é que o 1 parte de uma baixa freqüência do meme para uma alta freqüência do meme conforme a população falante da língua norueguesa cresceu. (A cultura se expandiu.) E o 2 presume que a presença do meme atual se deve mais à extinção de outros memes.

Além dos fatores estocásticos, pode ter acontecido também seleção.

Não estamos falando de seleção natural, dado que estamos tratando de cultura.

A seleção dentro da Memética acontecerá de acordo com princípios lamarckistas, pois uma pessoa pode deixar de usar memes durante sua vida e pode adquirir novos memes, além de poder criar novos memes. Uso e desuso.

Falando denovo em palavras, como uma palavra que se encontra hoje em alguma língua pode ter sido selecionada?

É aí que entra o que os linguistas chamam de “lei do menor esforço” – passar mais informação pronunciando menos fonemas, o que pode ter uma vantagem dependendo da cultura analisada.

Exemplo de palavra que mudou de acordo com a lei do menor esforço a seguir.

Na língua inglesa predominam palavras curtas, monossílabos, dissílabos e trissílabos principalmente no uso coloquial. Algumas palavras grandes comuns em línguas latinas como o português são consideradas palavras “difíceis” (aquelas de menor uso, mais freqüentes em dicionários que em uso coloquial).
No Brasil o uso da palavra “adquirir” é comum, mas nos EUA é raro o uso da forma “acquire”, sendo preferida o sinônimo condicional “get” (que também substitui como sinônimo muitas outras palavras maiores, como “understand”).

No português brasileiro, diríamos que um viciado vai para a clínica de reabilitação. No Reino Unido, “clínica de reabilitação” é simplesmente rehab.

Rehab tem uma origem muito clara, que é rehabilitation – uma palavra grande para os padrões da língua inglesa. De acordo com a “lei” do menor esforço, aposto que “rehab” é muito mais utilizada pelo falante coloquial do que “rehabilitation”, portanto há seleção do meme que diz respeito à utilização dessa palavra.
Principalmente depois da música “Rehab” de Amy Winehouse. 😀

Estou falando do surgimento de novidades evolutivas culturais no nível dos memes, mais particularmente nos memes que dizem respeito ao uso de palavras para expressar significados.

Outra fonte de novidade evolutiva é mutação.

Como um meme sofre mutação?

Dou mais um exemplo para tentar compreender:

Os memes referentes a fast food cresceram muito no século XX. Tomemos a expressão “Cheese Burger”.

Burger já é uma forma mutada. Sofreu seleção da “lei” do menor esforço a partir do ainda usado hamburger.

Hamburger também é uma forma mutada, não na grafia mas no significado – no passado era usado apenas para designar algo ou alguém originário da cidade alemã de Hamburgo.

Agora a forma derivada usada em lanchonetes brasileiras por aí: X-burguer.
O X vem da pronúncia levemente incorreta (mutação!) da palavra cheese, que é idêntica ao nome da letra no português. Por isso, de acordo com a lei do menor esforço, que serve também para a grafia, Cheese virou X (mutação!).
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Música como caso especial de complexo de memes

Se o “órgão da linguagem” de Chomsky é a base genética sobre a qual se fundam os memes da língua, haveria bases genéticas para sustentar os memes da música?

Estamos, acredito, pré-dispostos geneticamente para encontrar padrões sonoros e vocalização para reforçar sentimentos e estimular um mesmo estado mental para um conjunto de mentes ao mesmo tempo.

O conhecimento é precário quanto a como essa pré-disposição teria surgido. Temos apenas hipóteses, entre elas, a de que a música surgiu para nós como a cauda do pavão: seleção sexual. Mas não se observa (aparentemente) diferença de aptidão musical entre homens e mulheres, e isso traz um problema para esta hipótese, dado que apenas o macho teria o que se chama de “display” (exibição) a sofrer a atuação da seleção sexual.

A nossa musicalidade pode ter sido também um subproduto de outras aptidões. A vocalização, a produção de som em geral é muito útil e tem papéis claros na evolução: espécies com comunicação interindivíduos têm claras vantagens evolutivas: agregar os filhotes em volta da mãe, afastar predadores e competidores, etc.

O nosso cerebelo, antes ligado apenas ao equilíbrio e habilidades motoras, foi descoberto como um região encefálica importante durante a interação com a música.

Uma notícia da Nature diz que “culturas africanas que têm cantos similares tendem a ser geneticamente próximas”, um indício de que existe mesmo esta pré-disposição:
http://www.nature.com/news/2007/071210/full/news.2007.359.html

Assim, se há bases genéticas para formas de se fazer música, a letra de “Garota de Ipanema”, por exemplo, seria um meme (ou conjunto de memes) sustentado por essas bases.

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Fontes e Bibliografia Relacionada
Alberts, Bruce et al. Molecular Biology of The Cell. Garland Science, 2002.
Dawkins, Richard. O Gene Egoísta.
Dennett, Daniel. A Perigosa Idéia de Darwin.
Kumar, Vikrant et al. Y-chromosome evidence suggests a common paternal heritage of Austro-Asiatic populations. BioMed Central, 2007.
Ridley, Mark. Evolução.
YourDictionary.com

  • Da mesma forma que a própria cultura é sustentada por estruturas biológicas, a partir da interação entre diversos organismos que dividem um mesmo meio.
    Meme é um conceito muitíssimo interessante, e acho que é complicado acharmos “conceitos” no cérebro, o que é muito diferente de acharmos uma unidade como o gene é.

  • .
    “Mil platôs se baseia, ao contrário, em uma ambição pós-kantiana (apesar de deliberadamente anti-hegeliana). O projeto é “construtivista”. É uma teoria das multipheidades por elas mesmas, no ponto em que o múltiplo passa ao estado de substantivo, ao passo que o Anti-Édipo ainda o considerava em sínteses e sob as condições do inconsciente. Em Mil platôs, o comentário sobre o homem dos lobos (“Um só ou vários lobos”) constitui nosso adeus à psicanálise, e tenta mostrar como as multipheidades ultrapassam a distinção entre a consciência e o inconsciente, entre a natureza e a história, o corpo e a alma. As multipheidades são a própria realidade, e não supõem nenhuma unidade, não entram em nenhuma totalidade e tampouco remetem a um sujeito. As subjetivações, as totalizações, as unificações são, ao contrário, processos que se produzem e aparecem nas multipheidades. Os princípios característicos das multipheidades concernem a seus elementos, que são singularidades; a suas relações, que são devires; a seus acontecimentos, que são hecceidades (quer dizer, individuações sem sujeito); a seus espaços-tempos, que são espaços e tempos livres; a seu modelo de realização, que é o rizoma (por oposição ao modelo da árvore); a seu plano de composição, que constitui platôs (zonas de intensidade contínua); aos vetores que as atravessam, e que constituem territórios e graus de desterritorialização.
    A história universal da contingência atinge aí uma variedade maior. Em cada caso, a questão é: onde e como se faz tal encontro? Em vez de seguir, como no Anti-Édipo, a seqüência tradicional Selvagens-Bárbaros-Civilizados, encontramo-nos agora diante de todas as espécies de formações coexistentes: os grupos primitivos, que operam por séries e por avaliação do “último” termo, em um estranho marginalismo; as comunidades despóticas, que constituem, ao contrário, conjuntos submetidos a processos de centralização (aparelhos de Estado); as máquinas de guerra nômades, que não irão apossar-se dos Estados sem que estes se apropriem da máquina de guerra, que eles não admitiam de início; os processos de subjetivação que se exercem nos aparelhos estatais e guerreiros; a convergência desses processos, no capitalismo e através dos Estados correspondentes; as modalidades de uma ação revolucionária; os fatores comparados, em cada caso, do território, da terra e da desterritorialização.
    Esses três fatores podem ser vistos jogando aqui livremente, quer dizer esteticamente, no ritornelo. As pequenas cantigas territoriais, ou o canto dos pássaros; o grande canto da terra, quando a terra bramiu; a potente harmonia das esferas ou a voz do cosmo? É isso o que este livro teria desejado: agenciar ritornelos, lieder, correspondentes a cada platô. Pois a filosofia, ela também, não é diferente disso, da cançoneta ao mais potente dos cantos, uma espécie de sprechgesang cósmico. O pássaro de Minerva (para falar como Hegel) tem seus gritos e seus cantos; os princípios em filosofia são gritos, em torno dos quais os conceitos desenvolvem verdadeiros cantos.”

    Gilles Deleuze e Félix Guattari
    .
    [:p]

  • Interessante; quando li O Gene Egoísta achei a idéia da memética muito interessante, e com algum futuro. Mesmo que pessoas das áreas humanas tendam a não gostar de coisas muito exatas (talvez porque não seja mesmo o melhor caminho a seguir para resolver certos problemas), ainda acho que surgirá uma melhor teoria sobre isso (se bobear, do Dawkins!).
    Acho que fazes muito bem em expor esses pensamentos e falar sobre um assunto realmente relevante.

  • Acabei de ler seu texto sobre os memes e a evolução da linguagem, muito interessante o conceito de meme.

    Bom você não ensina Eli, você faz com que o seu interlocutor aprenda. Porque ensinar é uma coisa e aprender outra coisa. Porque a pessoa mais importante é aquela que faz com que o outro aprenda, no caso de ensinar não há compromisso com a causa.

    Continue a escrever.

  • Anônimo

    [off topic]

    Eli

    Uma boa idéia se voce quiser continuar a discutir (não aconselho) com o Luciano em seu blog (ele usa todas as ferramentas ao seu dispor para "frescar" com as pessoas que vão lá) é tirar PRTSCN de tudo quanto for postado. Ele é safado.

    Confirme aí:

    http://www.portaldocriador.org/forum/viewtopic.php?f=51&t=4172

    Tem muito mais, depois eu publico uma coleção de imagens de safadezas dele.

    Quer ver ele ficar puto da vida? Comece uma campanha para ninguém postar mais no blog dele. Ele está desse jeito com o Argo e o Mallmal. Do Argo, então, ele não esquece, só vive falando nele, por causa da dica que este começou, mandando todo mundo tirar fotos dos posts.

    Mais um que conhece as safadezas do camarada:

    http://mallmal.blogspot.com/2009/10/nothing-but-truth.html#links

    [/off]