27th of February

Panteísmo, Wittgenstein e o vestuário feminino


No site de relacionamentos Orkut discuto freqüentemente sobre religião, que, por minha orientação epicurista e minhas preocupações filosóficas, é obviamente um assunto muito importante para mim.

As questões que tratam da origem, futuro, e natureza do universo e da nossa existência sempre serão muito relevantes. E as religiões pretendem explicar essas coisas. Portanto, me interesso por elas. E as julgarei na medida do possível.

Surgiu certa vez uma discussão sobre Panteísmo, baseada primariamente numa afirmação de Richard Dawkins, de que o Panteísmo seria um “ateísmo sexuado” (sexed-up atheism).

Por mais infeliz que possa parecer esta alegação (e de fato é infeliz, uma vez que expõe a opinião de muitas pessoas de uma forma que elas não gostam), não está de todo equivocada. Penso até que, dadas as devidas explicações, é não apenas compreensível mas defensável.

Explico-me com uma compilação do que disse naquele site:

Se o deus panteísta se confunde com o universo ou a energia, decidir chamá-lo ou não de deus é uma simples questão semântica, de gosto mesmo.

Não é muito diferente de chamar de Chapolim Colorado ou de Apolônio.

Em última análise, simplesmente não se identifica com algo pessoal, uma mente. Ao menos para Einstein (não sei se para Spinoza também), no que ele dizia, não parecia em nada com algo dotado de mente. Era mais um grande cômputo, autômato ou computador, o grandioso “maior do que o qual nada pode ser pensado” de Anselmo de Canterbury.

Com a diferença de que Anselmo achava que podia provar que era um deus pessoal, e que era benevolente, onipotente e onisciente. O máximo que Anselmo conseguiu provar é que tinha de haver algo maior que tudo, em que a energia como um todo se encaixa muito bem sem ter que se preocupar com nossa vida sexual como o Deus de Anselmo fazia.

“Ateu” significa, obviamente, não acreditar em divindade.
Mas nada impede um ateu ser um “panteísta”, no sentido de buscar inspiração em todo o universo material como se fosse uma entidade divina, sabendo, por ser ateu, que na verdade não é.

Dependendo da definição aplicada a teísta e ateísta, a afirmação acima pode parecer descartável pela Lógica formal.

Por isso talvez seja proveitoso trazer à tona algo de Wittgenstein.

Wittgenstein abandonou o atomismo lógico de Bertrand Russell (que propõe que existem proposições lógicas básicas irredutíveis que tornam a lógica algo universal).
Porque com os seus “jogos de linguagem”, ele concluiu que uma lógica universal não se aplicaria a casos que exemplificam a plasticidade da linguagem em figuras que enriquecem o discurso, como metáforas.

Portanto, não haveria para Wittgenstein uma Lógica universal.
A própria lógica seria “contingente” ao respectivo jogo de linguagem.

O que pretendo dizer com isso é que não há necessariamente contradição em ser panteísta e ateísta ao mesmo tempo. Não porque eu estou dando uma de homem-bomba e estou jogando tudo para o relativo como fazem os néscios pós-modernos.

Não. É porque, como eu já tentei expressar, não há consenso quanto à definição do termo Deus.

Se posso tirar tudo de sobrenatural do termo, posso sim ser panteísta. Mas, do modo como a maioria da humanidade interpreta o termo, ainda sou um ateu.

Ele olhariam para o deus que eu apresento e dirão “mas quê? É isso que você acha que é Deus?? Quero um que me torne rico!”

A “lógica” que me proibiria de ser ateu e panteísta ao mesmo tempo é formalmente impecável (ateu sem deus não é panteísta com deus). Entretanto… percebe-se a questão semântica: estou trabalhando com no mínimo duas definições de deus ao mesmo tempo: a que eu escolheria se fosse panteísta, e a que se identifica nas religiões e me torna ateu – sem que eu tenha mudado minha opinião.

Por isso mesmo penso que não há nada mais inútil e confuso, em termos práticos, que ser teísta defendendo o panteísmo, sabendo que o deus contido nessa opinião nada tem a ver com o que deus significou na maior parte da História.

De acordo com o pensamento de Wittgenstein denovo, a definição que mais vale é aquela consensual no jogo de linguagem – e a que está ganhando em número (hoje) com certeza não é a definição panteísta.

Também a definição de ateu que estou usando envolve mais do que rejeitar crença em deus(es): envolve minha percepção materialista filosófica, e meu respeito pelo modo científico de se obter conhecimento a ponto de eu rejeitar outras formas como igualmente confiáveis.

Se o panteísmo é um ateísmo disfarçado, é também um teísmo sublimado.

Um teísmo em que um conceito original de um deus pessoal foi evaporando para se identificar com o universo em si mesmo.

Temos que levar em conta as origens do conceito de deus. Houve um tempo em que se tratava sim de um barbudo sentado logo ali numa nuvem.

Recapitulando, estou usando duas definições de deus – a panteísta (impessoal) e a teísta (pessoal).

A segunda predomina em número, isso é óbvio – e não é argumento ad populum, é constatação.

Usando os jogos de linguagem de Wittgenstein, mesmo que para si mesmo um panteísta use o Chapolim Colorado (deus) dele, isso é irrelevante num jogo de linguagem em que a definição funcional e consensual é a segunda.

Ou seja, nestes termos, a lógica predominante neste jogo de linguagem dita que o panteísta é na verdade um ateu nu e cru. Um panteísta não se sente um ateu porque sabe exatamente o que é Deus para ele. No entanto, repito, o conceito consensual de deus que existir em sua sociedade permite que ele seja tratado como um ateu (quando tratamos a humanidade como um todo, com seu número incomensurável de comunidades e jogos de linguagem, não teremos um consenso).

Porque o panteísta, aos olhos do conceito consensual, está usando indevidamente um vestido (a palavra deus) para botar numa mulher feia (o universo), enquanto todo mundo só veste a mulher bonita (o deus pessoal) com esse vestido.

Também seria correto dizer que um ateu não pode ser panteísta – mas para isso toma-se a premissa de que há pelo menos duas definições fixas aí: ateu e deus.

Por complicado que possa parecer, a linguagem é maleável para cada pessoa, mesmo que isso gere discordância.

Para deixar claro, o que eu citei de Wittgenstein pode ser resumido em duas coisas:

1 – A Lógica não deveria ser tratada como universal, por isso não haveria o Atomismo Lógico de Russell que valeria para toda e qualquer inteligência. (Minha opinião sobre isso é irrelevante para o entendimento do assunto tratado.)

2 – Uma das coisas que impede a universalidade absoluta da lógica é a plasticidade de conceitos, e a alteração instantânea e “temporária” de conceitos em figuras de linguagem.

Evitei dizer antes: tenho esperanças de o atomismo lógico ainda ser defensável. Mas preciso aprender muito para tentar defendê-lo. Uma vez que temos conceitos claros, a lógica também é funcional e defensável. Mas, como eu já disse, a lógica não consegue abraçar toda a plasticidade do discurso.
***

“Dubitando ad veritatem pervenimus.”
Marco Túlio Cícero

  • Olá! Diga-me uma coisa, Anselmo era panteísta?
    Obrigada.

  • De modo algum, Eva.
    Anselmo da Cantuária (ou Canterbury) era teísta, e cristão. Ele elaborou um argumento apriorístico para tentar provar a existência do Deus dele.

    Veja o vídeo “Dois ou mais enigmas para um Deus improvável”, onde falo mais a respeito: