9th of December

Analogias



A ciência é um cachorro imortal.

O dono costuma achar que o controla enquanto o possui, e que o animal vai sempre se curvar aos seus caprichos. É um cão leal e obediente, mas tem algo de misterioso e independente.
Quando o dono antigo morre, o cachorro imortal vai para um dono novo, e lá o cão vai ter alimento, conforto e fará as tarefas que o dono quiser.

O cão imortal está sempre mudando a pelagem, mas sua anatomia interna continua basicamente a mesma. Quando a tarefa requisitada pelo dono ameaça a vida do cachorro imortal, o canino se recusa a executá-la.
Se o dono tenta forçar o cachorro a realizar a tarefa impossível, o canino foge de casa. O dono, frustrado com a fuga do cãozinho imortal, pode substituí-lo por cães mortais, lobos ferozes, gatos desobedientes, pássaros impossíveis de se capturar, mas nunca consegue um animal tão útil quanto o cão imortal.

Mas o cachorro imortal também comete travessuras contra o dono.
Sem querer, ao abanar o rabo, derruba e estilhaça louças finas que não tinham utilidade nenhuma mas embelezavam a casa. As louças finas são os dogmas religiosos.
Na calada da noite, o cãozinho mata as galinhas que estavam sendo cuidadas há meses. As galinhas são as hipóteses formuladas com todo o cuidado e carinho, mas que não sobrevivem à mordida do cão imortal.

O cachorro imortal não ama nem odeia o dono, mas faz qualquer tarefa que o dono quiser contanto que a tarefa não ameace sua própria vida (pode até ameaçar a vida do dono, mas não a sua própria). O cão pode ser usado para o bem ou para o mal, mas nunca para mudar sua anatomia interna básica, nem para achar sempre o que foi esperado em vez do que é capaz de encontrar com seu faro fino.

Uma vez que o dono tenha morrido, ou que o cachorro imortal tenha fugido de casa, este pode ou não achar um dono novo. Se não acha um dono novo, pode hibernar por tempo indeterminado. Pacientemente espera, até que um dono novo se desocupe de sua coleção de louças finas, e de sua criação de cães mortais, gatos, lobos, pássaros ariscos e galinhas despreocupadas. Espera até que o novo dono o encontre e o considere o bicho de estimação ideal por causa de toda a sua força e beleza perenes.

Um dono do cachorro imortal pode ser uma pessoa, uma civilização, uma instituição ou uma corrente filosófica.
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A religião é uma velhinha simpática.

Uma velhinha carinhosa, acolhedora, sorridente e bonitinha. Nos recebe em sua casa, nos faz guloseimas apetitosas, e adora uma conversa acanhada e superficial.

Falar ou permanecer em silêncio não faz muita diferença para a visita, o importante para a velhinha é que a visita retribua o sorriso, elogie a comida e ouça o que a velhinha diz balançando a cabeça afirmativamente. A velhinha adora falar, conta muitas histórias e sempre tem conselhos a dar – e muitos conselhos se parecem com ordens.

A velhinha é solitária ou tem pouquíssimas amigas também velhinhas parecidíssimas com ela.
E entre elas adora falar mal de outras velhinhas que são diferentes – às vezes as condena ferozmente, às vezes se refere a elas com eufemismos maliciosos num tom aparentemente amigável.

Se a visita contraria a velhinha, no mínimo será convidada a se retirar pela anfitriã, que fará cara feia. Se a vizinhança não estiver olhando, a velhinha contrariada pode se voltar contra a visita com uma faca de cozinha na mão. E a velhinha não pensará duas vezes antes de ferir ou até matar a visita insolente.

A velhinha morre, e com ela morrem suas últimas visitas, mas ninguém chora sua morte. Afinal, sempre haverá outras velhinhas, parecidas ou diferentes da defunta, mas sempre oferecendo guloseimas, comida deliciosa porém não muito saudável, e uma agradável conversa superficial abundante em conselhos e histórias explicativas para qualquer coisa.

Por mais amáveis que sejam, as velhinhas nunca confiam em nenhuma outra velhinha, mesmo que seja uma amiga. Todas as velhinhas são viúvas que desejam reencontrar seus maridos. E para elas desejar é poder, e desejo é verdade. Os maridos falecidos são uma constante na conversa das velhinhas, e elas falam deles com uma nostalgia contagiante. Mas nenhuma delas tem certidão de casamento para mostrar, nem qualquer coisa que descarte a possibilidade de elas terem sido na verdade solteiras a vida inteira.

Para que suas vidas tenham sentido, as velhinhas tentam controlar as vidas de seus visitantes, e para isso podem viciá-los em guloseimas. Tentam convencer suas visitas de que não há velhinha melhor nem guloseima mais gostosa em todo o mundo, o que convence a maioria dos visitantes a ensinar seus filhos a visitar exclusivamente sua velhinha de preferência.

Cada velhinha conta uma história diferente, e velhinhas amigas contam histórias parecidas. Mas nenhuma velhinha filmou sua história acontecendo, e nenhuma história é isenta de ser afetada pela senilidade da velhinha.

Velhinhas não gostam muito do cachorro imortal, pois são fabricantes de louças finas. Procuram evitá-lo ou até mesmo eliminá-lo.
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“Obit anus, abit onus.”
Schopenhauer

  • Anônimo

    muito bom.. muito bom mesmo… foi voce mesmo que escreveu isso? abraço

  • Anônimo

    bela analogia

  • hahahaha Eli, eli!

    O final foi ótimo, a citação de Schopenhauer!!

    Criei um blog, só falta paciência para postar, já adicionei você aos favoritos, abraço.

    /Dinha