21st of October

E se os biólogos fossem criacionistas?


Vamos supor o seguinte: que toda a literatura científica foi queimada por uma ditadura extremista mundial. Os biólogos teriam como referência apenas boatos sobre pesquisas com animais, plantas e microorganismos. Os evolucionistas foram queimados na fogueira.

Depois de um século de nova pesquisa, a que conclusão os novos biólogos – todos no princípio defensores da tese do Design Inteligente – chegariam?

No momento inicial, a nova biologia suporia que a inteligência do Designer é perfeita, digamos, de 100%, pois a complexidade do corpo humano é incrível, e é admirável como cada molécula, cada tecido e cada órgão trabalham com harmonia.

Mas aí, não sem muito arranca-rabo, alguns grupos de pesquisa apontam que o corpo humano está vulnerável ao câncer por motivos totalmente aleatórios para os quais não há nenhuma defesa totalmente eficaz no genoma humano. Outros apontam que o Designer não nos deu muita superioridade para o combate natural do câncer em relação a outros animais.

Por esse motivo, a inteligência atribuída teoricamente ao Designer cai para 80%. Admite-se que sua capacidade criativa está propensa a erro, e há maculação da criação.

Outros biólogos descobrem um monte de órgãos vestigiais em diversos animais (dedinho da cobra) e plantas (nervuras principais em carpelos), genes desligados no genoma humano sem função nenhuma, e orquídeas enganando vespas, e diminuem a inteligência atribuída ao Designer para 60%. Afinal, além de permitir maculação da criação, ele permite que sua criação contenha excessos não muito favoráveis a si mesma.

Tempos depois, mais ousadia: descobre-se que existem fósseis parecidos com os seres vivos atuais, mas não tanto, e descobre-se a datação deles. Conclui-se que o Designer, além de não se decidir por uma criação acabada, faz ajustes todo o tempo, e os ajustes levam muito tempo para fazer grande diferença.
Em meio a muita pancadaria em congressos e periódicos, os novos biólogos decidem diminuir a inteligência do Designer para 40%.

Um fulaninho ousado escreve uma obra extensa sobre casos em que a criação diminuiu sua complexidade. Peixes cavernícolas e toupeiras perderam olhos, parasitas ficaram cada vez mais simples para executar basicamente reprodução e alimentação.
Para quê o Designer seria indeciso a ponto de optar por um design clean de repente? Por que uma cauda de pavão e um vírus ao mesmo tempo?
Propõe-se diminuir a inteligência do Designer para 20%. Com dissidência e desistência de trabalhar cientificamente, mas outros motivos fizeram essa concepção teórica ser forçosa e inevitável.

Os novos biólogos observam que muitos genes parecem ter tido ancestral comum. Um regulador de transcrição parece ser uma enzima que teve áreas inativadas pelas já conhecidas mutações (ex: Galactoquinase de Saccharomyces cerevisiae). No sistema sangüíneo ABO, tudo aponta que os indivíduos de sangue O nada mais são que mutantes para alelos de A e B. Pigmentos da retina apresentam ancestralidade entre si.

Por causa desses cuidados tão obtusos fica difícil não admitir, finalmente, que a inteligência do Designer é zero. É claro que os dissidentes que desistiram de trabalhar cientificamente nunca concordarão com essa conclusão dos novos biólogos.

Um Designer totalmente burro tem nome. Se chama Seleção Natural.

  • Achei o texto inteligente e muito bem escrito. (Apesar de achar que as porcentagens poderiam ser substituídas, mas tudo bem.)
    De fato, os motivos para sustentar a “teoria” do design inteligente são os desejos de considerar o homem como máquina perfeita e cume da vida terrestre e interligar ciência e religião. Ou seja, são motivos que não se aplicam ao que gostaríamos de chamar ciência.
    Mesmo sendo um desejo querer ser considerado perfeito e “desenhado” (e isso sem contar o desejo de aparecer com uma teoria bonitinha e dar entrevistas), ainda acho que há muitos defensores do criacionismo/design inteligente. Se há algo que possamos fazer é “divulgação científica”, que é o que fazes no teu blog.

  • Olá. Cheguei aqui por indicação do Eduardo (o mesmo Fischer que aqui comentou). Gostei do teu blog, acho que escreves de uma forma interessante que dificilmente consigo encontrar pela dita “blogosfera”.

    Ainda tenho certa dificuldade para compreender como algumas pessoas, vivendo no século “globalizado (e isso é o que muitas delas gostam de afirmar!)” que vivem, assistindo à descobrimentos fantásticos que se fazem completos todos os dias, observando todos os dados passados já deixados, afirmam (e confiam) a existência de um deus. E essa teoria é bem interessante (note que interessante e inteligente são palavras bem distintas). O conceito de “complexidade irredutível” parece ter sido bem pensado até. Mas… e quem disse que uma estrutura qualquer precisa ter, necessariamente, um “objetivo final (para simplificar os termos…)”? É engraçado como, nessa “teoria”, se descartam totalmente todas os casos de mutações.
    Realmente, uma “concepção” bem estruturada com um ideal bem definido: empacotar a religião de uma forma bem disfarçada, para ela, novamente, explicar o surgimento da vida.

  • excelente blog !
    ótimos posts !!

    parabens,
    Marcelo Hermes (UnB)

  • Um detalhe (quem sabe) desnecessário:
    Se importa se teu blog aparecer entre os links existentes lá no meu? Na verdade já fui inconveniente e o coloquei lá. Se achares que o contrário é mais razoável, bem, avise.

  • Muito bom teu blog, Eli. Gostei do texto. Só uma pequena correção, o nome correto da levedura é Saccharomyces cerevisiae

    Um abraço.