6th of October

Ateísmo assintótico versus Ateísmo dogmático


Assíntota é uma curva que se aproxima de um eixo cartesiano, ou de um dado valor de uma coordenada cartesiana, mas só o atinge no infinito. Ou seja, nunca o atinge formalmente.

Freqüentemente, muitas pessoas com uma idéia esclarecida a respeito das religiões, filosofias e ciências cometem o equívoco de atacar a ateísmo dos “brights” com argumentos que servem para derrubar o ateísmo dogmático.
Por exemplo, alegam que o ateísmo é uma religião, e que a atitude de gente como Richard Dawkins é inaceitável porque ele supostamente estupra toda a Epistemologia e a Teoria da Ciência ao tentar enfiar seu ateísmo dentro da Ciência, e espalhá-lo de maneira análoga à pregação dos evangélicos.

Em “Deus, um delírio” (Cia. das Letras, 2007), Dawkins em momento algum diz que está provando que Deus não existe. Ele apenas aponta, de maneira lógica, a improbabilidade de cada uma das hipóteses teístas.

Epistemologicamente Dawkins é bem resolvido. Não é necessário que ele opte por uma vertente da filosofia da ciência em sua argumentação, embora a definição popperiana de hipótese seja adequada para o livro dele. O assunto que Dawkins trata está muito aquém disso tudo. Indutivismo ou Dedutivismo, as conclusões científicas baseadas em qualquer uma dessas vertentes são bem distinguíveis (gritantemente distinguíveis) das conclusões religiosas baseadas “em fé”.

Dawkins considera a maior parte das hipóteses de divindade como hipóteses científicas, e elas são mesmo!
Para Popper, a hipótese científica pode ter qualquer origem (contanto que tente explicar a natureza), e será refutada pelas evidências angariadas na observação. Não existe religião que não recorra à natureza e ao universo físico para apontar evidência para a existência de seus mitos – mesmo que esse apelo se restrinja historicamente, ou de outras formas. Ciência e Religião não estão completamente separadas como já se propôs. Também a separação dos tais NOMA de Stephen Jay Gould (Ciência e Religião como magistérios que não se sobrepõem) está fortemente refutada por Dawkins.

Vejam com que ardor a Igreja Católica perseguiu a evidência do Santo Sudário, até a exaustão. Se houvesse essa separação realmente, a Igreja Católica simplesmente contemplaria o Santo Sudário com desinteresse admirador.
Se a separação fosse verdadeira, para verificar se os milagres de Fátima são significativos e diferem de qualquer outro placebo, os cientistas devem dizer “NÃO VAMOS TOCAR NISSO, ISSO É FÉ!”

Há inúmeros outros exemplos da fome religiosa por evidências. Os muçulmanos juram que Maomé subiu aos céus, Budistas descrevem um comportamento estranho de animais frente à figura de Sidarta Gautama. Animistas, por definição, fabricam divindades prosopopaicas todo o tempo. Mongóis que cultuam Gêngis Khan como deus atribuem o sucesso bélico do líder à vontade do “Céu Azul” (captado pelos olhos, não pelo órgão da fides quae creditur descrita por Paul Tillich).
Boa parte das afirmações religiosas são sim hipóteses científicas, e como tais devem ser devidamente verificadas quando possível.

A alegação comum de que os objetos de fé são obtidos apenas através do ato de ter fé em si é uma hipocrisia.

As características atribuídas a divindades até hoje partiram direta ou indiretamente de antropomorfismo.
Até mesmo o conceito básico de a divindade possuir inteligência, ou capacidade criativa, é um antropomorfismo, porque a inteligência criativa a que temos acesso e conhecimento é apenas a inteligência humana (é claro que outros vertebrados podem apresentar inteligência criativa notável, mas por comparação com o humano ignorarei respeitosamente este fato).
A inteligência e capacidade criativa humanas estão fundamentadas, pelo que se pode inferir de todas as pesquisas psicológicas e neurocientíficas, no cérebro.

Não há motivo para não atribuir o surgimento do cérebro humano à ação da evolução, não importa se exclusivamente pela seleção natural, ou por outros mecanismos evolutivos como a seleção sexual. Não há qualquer outra forma de surgimento do cérebro humano que seja tão plausível quanto a evolução. Isso tem como conseqüência, também, o surgimento da mente humana por processos puramente naturais.

Baseando-se nisso, torna-se desnecessário propor que haja uma inteligência que tenha surgido por acaso no universo. Seria astronomicamente improvável, exponencialmente mais improvável que o surgimento da nossa inteligência pela evolução cumulativa.

Se há uma divindade, ela precisa ter evoluído, e é muito pouco plausível que a evolução biológica atinja algo como a onisciência, onipotência e onipresença. Muito menos a capacidade criativa de alterar ou criar o âmago da matéria e da energia.

Se em algum lugar do universo existe uma entidade super inteligente, e com uma capacidade criativa notável, é pouco provável que seja onipresente, onisciente e onipotente. Menos provável ainda que tenha a capacidade de ouvir orações de milhões de seres humanos, de respondê-las ou atender os desejos.

Mentes surgem através da evolução. Mentes perfeitas são inacessíveis à evolução.

Quanto mais poderes são conferidos a uma divindade, menos provável ela é.

Todos os relatos de existência de divindades já produzidos pela humanidade têm mais caráter disciplinador que explicador da natureza. Além disso, as explicações naturais que as religiões já produziram muitas vezes se mostraram falseáveis, e foram de fato falseadas pela prospecção científica dos últimos séculos.

O caráter disciplinador das divindades, e outros aspectos atribuídos a elas, revelam criatividade humana restrita a conjunturas culturais. Nenhum conhecimento foi antecipado pela revelação. A capacidade de predição das religiões no campo natural é praticamente nula.

Tudo o que se espera, em qualquer tribo, é que surja um dia um pajé que para acalmar os ânimos CRIE divindades para explicar os fenômenos da natureza, e eventos históricos que muitas vezes nunca aconteceram.

A causa primeira de John Locke é um espaço que pode ser preenchido por qualquer coisa – inclusive matéria inerte.
Como sempre, preencher esse espaço com uma entidade perfeita preocupada com nossas vidas é fruto de seleção de explicações com base em apetite emocional, não fruto de reflexão racional, muito menos de informação empírica.

O argumento teleológico de William Paley se revelou, após Darwin, uma ilusão. Não é necessário um artífice para fazer surgir formas criativas no mundo natural. E a cada dia fica mais aparente que não é necessário Artífice Inteligente, também, para fazer surgir vida, nem surgir mente.

Esse argumento era um dos mais fortes ao qual a Teologia poderia recorrer para aumentar a quota de possibilidade de existência das divindades. Hoje, o que se propõe na Teologia Liberal é uma passividade mórbida. Não se espera que Deus responda ou atenda a orações, espera-se, cruzando os dedos, que ele exista e que a fé por si só seja uma garantia disto.

Anselmo da Cantuária, Agostinho e Tomás de Aquino têm sido ressuscitados para tentar elevar a quota de possibilidade, mas sem efeito. Argumentos antigos, perdidos em formulações lógicas brilhantes sem muita aplicação empírica, em nada ajudarão na derrocada do argumento teleológico da teologia natural.

Portanto, não há mais motivos para acreditar em Deus (seja qual for) do que há para acreditar em Papai Noel ou na Fada do Dente.
O único problema de Papai Noel e da Fada do Dente é que eles não são suficientemente volatilizados e sublimados para o intangível. Quem faz e continua fazendo isso com o Javé da Bíblia são os teólogos cristãos. Vêem a Bíblia como um documento vergonhoso porque ela foi amplamente refutada pela ciência, pela história, e não se revelou superior a qualquer outro texto sagrado antigo ou relato de Pajé.

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Para fins de esclarecimento, é necessário evitar que se trave uma discussão com divergências puramente semânticas.
Percebo que, quando há reclamação do desejo de Dawkins de que as religiões sumam, provavelmente está sendo levando em conta o enriquecimento cultural advindo delas. Quanto a isso, duvido que Dawkins deseje realmente que sumam coisas como a arte feita sob inspiração religiosa, e a manifestação cultural religiosa em geral.
Se é nesse sentido que ele fala, então ele não merece respeito nesse ponto. Mas isso não invalida o argumento da improbabilidade dos deuses.

Bertrand Russell também disse desejar que não houvesse religião. Mas, com certeza, dado que ele era um apreciador da arte e um pacifista, ele não se referia à parte culturalmente enriquecedora que se encontra no termo. Russell se referia, como Dawkins parece se referir, ao conhecimento construído por causa da fé. Ao dogma cristalizado em afirmativas que interferem na natureza. Russell se refere, mais ainda, à certeza cega que as religiões muitas vezes alegam ter.

Para evitar essa confusão semântica, me refiro especificamente a fé e ao dogma quando falo de religião.

Se o ateísmo em questão deriva de uma certeza, sim, ele será uma pregação e um dogma. Mas não é o caso do ateísmo baseado na improbabilidade das divindades, que é um ateísmo não-absoluto, mas “assintótico” em direção à assertiva aparentemente absoluta (apenas aparentemente).

Justamente por não ser uma religião, o ateísmo é concluído a partir da negação de todas as religiões, e é exatamente isso o que ele faz. O que eu questiono aqui é a crença amplamente espalhada de que os dogmas religiosos, e a fé, só podem ser anulados por outros dogmas ou fés. Não é verdade. Quando o argumento da improbabilidade divina é aceito, a fé e o dogma não são anulados por substituição, mas por consideração racional acerca de quais partes do logicamente possível se concretizam no mundo natural.

E quem melhor explica o mundo natural é a Ciência.

Portanto, Dawkins está agindo como cientista ao falar sobre ateísmo, assim como agem como cientistas os teóricos da evolução e da historiografia, mesmo com suas limitações em relação a outras áreas. Todavia, não se conclui a partir da argumentação de Dawkins que a Ciência leva invariavelmente ao ateísmo.

Se deuses são improváveis, não há nada de incoerente em concluir o ateísmo a partir disso, assim como um biólogo qualquer decide se são equinodermos ou lampréias os animais mais próximos dos mamíferos.

Ateísmo assintótico não é religião e pode ter origem na análise dedutivista de hipóteses teístas.

O conhecimento científico é neutro, e não nega Deus. Como Dawkins não pretende provar a não existência, não nega Deus a partir de ciência. Não é possível observar dois universos, um contendo Deus e outro não contendo para ver qual é a diferença.

Entretanto, a partir de Filosofia, é possível considerar qual das possibilidades é mais plausível: haver ou não haver Deus. E, mesmo Filosofia, tendo base no que se sabe em Ciência. O que Dawkins faz não é vincular suas conclusões diretamente às conclusões que se faz quando se testa cientificamente, por exemplo, a eficácia de um novo medicamento.
O que ele faz, repito, é botar as cartas na mesa – avaliar o quão provável é a existência de cada Deus que já se propôs.

O que é negado pela ciência é o que não pode ser considerado como objeto de experimentação empírica. Mas pode ser considerado hipótese, e como tal, pode ser comparado às teorias já estabelecidas. E nesse ínterim, é possível avaliar sua probabilidade.

Por exemplo, é possível, na Filogenética, considerar os graus de parentesco de dois seres vivos com base no método da Parcimônia, mesmo que não se conheça sua história diretamente. As conclusões da filogenética têm um “grau de convicção”, digamos, menor que as conclusões científicas obtidas a partir de objetos de estudo completamente testáveis.
A Biologia, depois que se tornou uma ciência histórica, teve de aprender a lidar com certezas menores que a certeza de que “estômatos abertos aumentam a transpiração da planta”.

Daniel Dennett propõe que, para saber se uma forma de vida pode ser atingida pela evolução, devemos considerá-las em três instâncias: a possibilidade lógica de ela existir, a possibilidade biológica de ela existir, e a possibilidade de as formas atuais chegarem até ela. Dragões são logicamente possíveis. Mas são biologicamente possíveis? Os tecidos biológicos existentes nos vertebrados atuais podem sustentar uma labareda de fogo? Se sim, há caminhos possíveis de isso ser atingido?

Não existem extraterrestres no bestiário científico. Mas, porque pensava cientificamente e ceticamente, Carl Sagan chegou à conclusão de que eles eram razoavelmente prováveis, e que seria muito mais surpreendente que a vida na Terra estivesse sozinha.

Quando alguém nega a existência de deuses, não está fazendo ciência, nem experimentos, com certeza. Mas está pensando cientificamente, como Carl Sagan. Mesmo que seja Filosofia. O método científico depende de assertivas filosóficas, como o empirismo. É necessário crença no empirismo para levar o conhecimento científico a sério.

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O DOGMATISMO

O marxismo diversas vezes se transformou em religião, com livro sagrado e profeta.
De ateus que influenciaram a Revolução Francesa, pode-se citar muitos poucos, talvez apenas Diderot. Os outros filósofos, como Rousseau e Voltaire, eram deístas. Os revolucionários, principalmente os jacobinos radicais, personificados em Robespierre, criaram uma nova religião para substituir o cristianismo – em que eles adoravam a Deusa Razão (uma notória deturpação das idéias desses pensadores) e queimavam em praça pública o espantalho do Ateísmo.

Portanto, a religião não sumiu na Revolução Francesa, um período notório de surgimento de bases atuais da civilização. A religião, naquela época, foi substituída por outra com derrame de sangue.

O ateísmo que Dawkins propõe é, ao estilo do de Russell, um ateísmo de livre-pensamento, de cura da tendência humana de Dogmatismo Irracional. Por isso mesmo, é extremamente positivo que Dawkins peça que paremos de chamar crianças de pais muçulmanos de muçulmanas.

Entre ateus dogmáticos, que fariam de fato uma pregação, talvez estejam Mencken, Feuerbach, e até Nietzsche. Na “Genealogia da Moral”, Nietzsche praticamente constrói um mito explicativo num estilo quase bíblico.

Não há evidência científica da não-existência de divindades. Mas, dependendo do que está sendo chamado de Deus, a indiferença generalizada do universo ao sofrimento humano bastaria para refutar um Deus benevolente, mas não um Deus Malteísta.
Não há Fé no ateísmo assintótico porque a Fé é uma crença diferenciada. Cremos no empirismo, mas não significa que temos fé nele.

Se ninguém nunca tivesse visto um gordo numa população de mil habitantes, não significa que não existem gordos (ausência de evidência não é evidência de ausência, como dizia Carl Sagan). Mas até não aparecer o milésimo primeiro que seja gordo, eu continuaria AGORDISTA se houvesse um bom argumento de improbabilidade da existência de gordos.

Um cientista precisa ser um São Tomé. Precisa quantificar e ter sob seus sentidos o seu objeto de estudo. E além disso, esse “São Tomé” precisa ter competência para avaliar a probabilidade de suas hipóteses serem falsas ou verdadeiras antes mesmo de expô-las a teste, quando for possível expô-las.

A Ciência permanece porque tem o método e porque funciona. As religiões permanecem porque – além de serem culturalmente enriquecedoras – oferecem explicações que atendem ao apetite emocional das pessoas por um universo humanizado.

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Post Scriptum – Contexto social do ateísmo, e a Fé acompanhada de outras ilusões
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Bertrand Russell é ainda melhor que Dawkins na questão de posicionar o ateísmo epistemologicamente:

“Em ciência há muitos assuntos sobre os quais as pessoas concordam; em filosofia não há nenhum. Portanto, embora cada proposição em uma ciência possa ser falsa, e é praticamente certo que há algumas que são falsas, ainda assim nós seremos sábios em construir nossa filosofia sobre a ciência, porque o risco de erro na filosofia é com certeza maior que na ciência.”

Atomismo Lógico

“Um ateu, como um cristão, acredita que podemos saber se há ou não há um Deus. O cristão acredita que podemos saber que há um Deus; o ateu, que podemos saber que não há.
O agnóstico suspende seu julgamento, dizendo que não há bases suficientes para a afirmação ou para a negação. Ao mesmo tempo, um agnóstico pode acreditar que a existência de Deus, embora não impossível, é muito improvável; ele pode até acreditar que é tão improvável que não merece consideração na prática.
Neste caso, ele não está longe do ateísmo. Sua atitude pode ser aquela que um filósofo cuidadoso teria para com deuses da Grécia antiga.
Se me pedissem que eu provasse que Zeus e Posêidon e Hera e o resto dos Olímpicos não existem, eu me acharia perdido para encontrar argumentos conclusivos. Um agnóstico pode pensar que o Deus Cristão é improvável como os do Olimpo; neste caso, ele está, para propósitos práticos, em concordância com os ateus.”

‘O que é um Agnóstico?’ – 1953

“Um credo religioso difere de uma teoria científica ao alegar que incorpora uma verdade eterna e absolutamente certa, enquanto a ciência está sempre testando, esperando que a modificação em suas teorias atuais será mais cedo ou mais tarde necessária, e ciente de que seu método é logicamente incapaz de chegar a uma demonstração completa e final.”

Religião e Ciência (1935)

Só não me considero agnóstico porque penso que agnosticismo é a crença na eqüiprobabilidade de hipóteses acerca da existência de divindades. Não acho que as positivas são eqüiprováveis à(s) negativa(s). Por isso, por conveniência, e para deixar minha opinião clara, me declaro ateu.

Não há muito respeito pelos ateus.
Respeita-se muito, todavia, o silêncio. Há irritação porque alguns desses ateus partiram para o debate em vez de se manterem no tão prezado silêncio.
Há adoração dos sábios religiosos semi-agnósticos até pelo seu próprio silêncio, pois nem mesmo se arriscam a dar uma opinião clara sobre o que acreditam.
E além de respeitar o silêncio demais, respeitam o dogma. Acham que não se deve discutir o dogma, por isso até os ateus calados, supostamente todos dotados de fé, devem evitar o debate.

O que se estimula é a pieguice e o silêncio que vem predominando há séculos. Fora alguns poucos núcleos em filosofia, a maior parte da humanidade sequer cogita discutir dogmas.

Muitas pessoas inteligentes que querem defender passionalmente suas religiões provavelmente cresceram em meio a esse hábito injustificado, e querem mantê-lo irracionalmente atacando os ateus que defendem abertamente sua opinião. Mas estes merecem até agradecimento por ao menos levar o debate onde supostamente ele não deve entrar.

A irracionalidade de uma opinião inculcada desde a infância costuma ser mais forte que qualquer argumentação, e é essa irracionalidade o alvo dos ateus modernos.

Gould é um magnífico teórico evolucionista, sim. Conheço poucos livros de não-ficção tão gostosos de ler como os de Gould.

Mas isso não vai ajudar com a honrosa porém falha tentativa de Gould de separar Ciência e Religião de uma maneira tão frouxa. O que ele propõe (os NOMA) é infactível, e até dissimulado.
Como eu disse várias vezes, os dogmas religiosos não têm origem em fé pura. Pouquíssima coisa na Religião tem origem na pura fé.

O que a separação absoluta entre ciência e religião faz é fomentar o silêncio. Fomentar o silêncio para justificar um respeito excessivo pelo dogma.

Respeito entusiasticamente aqueles que acreditam num Deus mas o restringem a uma realidade metafísica. Entretanto, infelizmente, isso não refuta totalmente a improbabilidade. Digo sim infelizmente. É infeliz que os deuses não estejam logo ali no firmamento. Infeliz e trágico. Entretanto, seria insincero da minha parte acreditar neles porque quero, ou porque isso me faz mais confortável.

É difícil isolar a fé dos dogmas que a cercam.
Entretanto, já foram feitas tentativas na Teologia.

Segundo Paul Tillich, pode-se dividir a fé em modus operandi e alvo crido. O alvo crido é o que eu chamo de dogma.
Fé é ser “incondicionalmente tocado pelo que é verdadeiramente infinito”. É uma releitura, me parece, do argumento ontológico de Anselmo da Cantuária. Só que com acréscimos psicanalíticos, e outros acréscimos.

O argumento ontológico, apesar de ter fundamentação lógica perfeita, não garante que esse “incondicional” e “infinito” é uma divindade. Garante apenas que tem de haver “algo maior do que o qual nada pode ser pensado”.

Nesse caso, se uma pessoa desenvolve sua fé apenas através do argumento ontológico (ou da causa primeira), ela poderá atribuir as características que “quiser” (que acha que são defensáveis, ou que reflete suas impressões sobre a vida, a moral e a natureza) ao incondicional, e essas características vão para o dreno da metafísica. Nisso, se o incondicional é julgado como um Deus, a pessoa constrói um “conhecimento” baseado em pura fé.

Não estou certo se tenho mais exemplos. O “Céu Azul” dos mongóis tem origem empírica, como eu apontei. Entretanto, não se fundamenta apenas no sensível como um dogma religioso. Para se constituir como dogma religioso, o “Céu Azul” precisa conter os famosos “mistérios” (que caíram no gosto dos católicos).

Mistérios nesse sentido, que são adorados por si mesmos como se trouxessem o selo “contém divindade”, têm origem na pura fé. Em outras palavras, os mongóis são “incondicionalmente tocados” pelo Céu Azul, apesar da contaminação empírica.

Mas para Anselmo e Tillich, O Céu Azul não seria suficientemente maior ou infinito, portanto é uma idolatria – e o que está acontecendo quando as “idolatrias” são denunciadas? Volatilização para o intangível. Fuga do sensível. Sublimação para o infinito.

O que Anselmo e Tillich fazem sem perceber é tornar o Cristianismo uma gordura localizada, um peso morto.

Ora, se o “Céu Azul”, ou Zeus, ou Anúbis, ou Thor, ou a Homeopatia, ou o Marxismo, ou o Ateísmo Dogmático são idolatrias, o que impede o Cristianismo de ser uma idolatria?

Se cada um desses elementos que eu citei são dogmas advindos em alguma medida do sensível, da empiria, de evidências histórico-naturais, não deixam de ser idolatrias também coisas como acreditar em

– Ressurreição de Cristo,
– ascenção corpórea de Maria aos Céus,
– milagres de Fátima,
– comprovação científica dos milagres professada pela ICAR,
– Dilúvio Universal
– ascenção corpórea de Maomé aos Céus,
– criação especial do homem a partir de barro,
– criação especial da mulher a partir da costela,
– memória da água,
– salvação da humanidade a partir da ditadura do proletariado,

etc.

As características atribuídas ao intangível (maior, incondicional, causa-primeira) são contaminadas pela empiria na vasta maioria dos dogmas religiosos.
Portanto, ao interferir na natureza, os dogmas religiosos podem ser avaliados em princípio pela Ciência. Se não em experimentação, em inferência baseada no conhecimento científico já produzido. Na noção intuitiva de probabilidade já conhecida na Filogenética e na Historiografia.

Sou ateu porque penso que o conhecimento advindo da fé pura que citei não difere das idolatrias mais antigas.

Porque o Deus intangível é, no fundo, nada mais que uma personificação do universo (conclusão prosopopaica).
Há trinta mil anos, algum homem da minha idade, que nunca tinha pensado em ter fé antes na vida, pode ter ouvido um trovão, e bem depois de ter batido num velho por um ovo suculento de avestruz. Ao se lembrar dos cuidados de seus pais já mortos, atribui ao trovão uma bronca pelo seu comportamento errado de acordo com os padrões morais da tribo. Pronto, nasceu um deus.

Alguém ouve a história do trovão, e a conta em desenhos dentro de uma caverna. Eu vou até lá, “traduzo” os desenhos para o português, mas não cito claramente que a voz de deus era na verdade um trovão. Nasce a minha bíblia.

Eu leio e releio, bastante satisfeito, a nova bíblia. Como não cogito tentar explicá-la através do trovão, eu falo em infinito, em incondicional, e em causa primeira. Pronto. Nasceu a minha teologia.

Escolas vão ser obrigadas a ensinar meu gênesis na aula de ciência, meus filhos serão condicionados a cumprir meus rituais e se ligarem emocionalmente à minha religião. Nasce um câncer na civilização e um escravizador de mentes.
Faço músicas, construções, poesias em homenagem ao meu mito. Nasce mais uma fonte de riqueza cultural – para a qual se paga um preço.

Não é nada surpreendente que muitas religiões associem falta de fé e ateísmo ao mal. Como eu mostrei na minha analogia, muitas vezes o ateísmo sequer é cogitado. Faz parte da imunologia ideológica das religiões ligá-lo ao “lado negro da força.”

Análise de proposições comuns:

(1) Hebreus 11.1: “Fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem.”

(2) Fé é ser incondicionalmente tocado pelo que é verdadeiramente infinito.

(3) É necessário definir fé.

(4) Religiosos, ateus e agnósticos possuem fé invariavelmente.

(5) A Ciência abre mão da fé.

(6) Há seletividade feroz dentro do meio científico quanto ao que se propõe como hipótese, e é uma seletividade idêntica à aversão dos religiosos pelos ateus.

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(1) e (2) são definições alternativas que, embora não mutuamente exclusivas, se focam em aspectos diferentes e levam a diferentes conclusões sobre haver ou não haver fé no ateísmo [assintótico – daqui para frente é a este ateísmo que me referirei].

Segundo (1), não há fé no ateísmo. Pois ele não se baseia em um “firme fundamento” (dogma) nem em “prova das coisas que não se vêem” (fé como modus operandi, e dogma denovo). Se baseia numa conclusão probabilística intuitiva baseada na “prova das coisas que se vêem” (teorias científicas), que não é uma conclusão absoluta, mas uma aposta confiante.

Evidências científicas que apoiem a conclusão absoluta de William Paley serão suficientes para derrotar o ateísmo.

Segundo (2), há fé no ateísmo. Não só no ateísmo, como em qualquer outra coisa – culinária, cinema, jogo de xadrez. O “toque do incondicional” implica uma espécie de ‘obsessão’, ou um arrebatamento emotivo, e virtualmente todos os seres humanos estão propensos a isso. Levando em conta que o “verdadeiramente” é subjetivo e relativo.

(3), (4) e (5) revelam que há problemas nas duas definições anteriores. Quer dizer que, para saber o que é fé, cada pessoa tem de contar com sua própria experiência.
Segundo a minha experiência como ex-católico, existem sim pessoas sem fé. E, na Igreja, os fiéis são exortados a terem mais fé. Se fé pode ser quantificada, pode atingir o valor nulo.

Se pode atingir o valor nulo, é possível não ter fé, e o ateísmo é uma possibilidade real de não-fé.

Até mesmo Jesus Cristo, no evento em que andou sobre as águas, acusou seus discípulos de serem homens de pouca fé. Portanto, se levam seu livro sagrado a sério, os cristãos precisam considerar que a mente humana é capaz de diminuir a fé em si mesma, e até anulá-la, e a fé não é um órgão inato como Paul Tillich alega.

A fé é, portanto, uma construção cultural, no desenvolvimento ontogenético.

Se (5) é verdade, a comparação apresentada em (6) não faz sentido.
Pois comparou-se a imunologia ideológica religiosa contra o ateísmo e as exigências básicas de apresentação de idéias científicas que não consistem em rejeição a priori.

Resumindo:

– Mentes surgem na evolução e são improváveis, por isso divindades são improváveis.

– As análises “profundas” da fé feitas pela Teologia não excluem a possibilidade forte da fé ser uma mera ilusão respeitada por ter raízes profundas historicamente e biologicamente.

– Crer não é sempre ter fé, e a noção quantitativa existente nas religiões, quanto a ter “mais” ou “pouca” fé abre espaço para a ausência de fé como possibilidade real.

– A Intuição emana da Razão, ao contrário da Fé. O cientista Peter Medawar, em “Induction and Intuition in Scientific Thought” discorre mais sobre o papel da intuição na ciência como ato humano independente de fé.

– Existem ateus que têm fé na não existência de Deus. Ateus dogmáticos, e eu não sou um deles.

– Probabilidades são acessíveis à razão. Isso se dá pela intuição matemática com profundas raízes cognitivas. Sabemos “calcular” a velocidade de um carro antes de atravessar uma faixa de pedestres, e para isso não pedimos auxílio à calculadora ou às fórmulas matemáticas.

– Ninguém prova que X não existe, só se pode analisar qual é a probabilidade de X existir. Se há ou não há um sapo azul voador na Amazônia, e em que medida esta entidade é mais ou menos provável que a Fada Sininho, são coisas capazes de sofrer análise da intuição probabilística.

– O Cristianismo não é justificável como superior a qualquer outra idolatria.

– A fé por si só não garantirá que um ou outro dogma advindo dela seja superior a qualquer outro dogma.

– Os dogmas religiosos são contaminados por empiria, seja constante ou restrita ao passado, e isso permite sua análise filosófica à luz das teorias científicas.

– O ateísmo que chamo de assintótico é possível como conclusão “frouxa”. Essa frouxidão está presente em toda e qualquer conclusão, em maior grau nos dogmas religiosos, em menor grau nas teorias científicas.

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Reconheço minha ignorância quanto a grande parte do que já foi feito na Epistemologia, Filosofia e Ciência, mas se tem alguma coisa digna de valor no que aprendi no pouco que li nessas três áreas é saber argumentar e evitar estratégias intelectualmente desonestas.

LITERATURA RECOMENDADA (autor – obra):
Anselmo da Cantuária – Proslógio
Paul Tillich – Dinâmica da fé
Richard Dawkins – Deus, um delírio
Daniel Dennett – A perigosa idéia de Darwin
Peter Brian Medawar – Induction and Intuition in Scientific Thought

  • Olá, interessante o texto.

    Olhe só, http://www.queroterumblog.com tem dica sobre como deixar a leitura mais fácil. O texto é muito extenso e usa termos que dispersam a atenção do leitor várias vezes como por exemplo dizer: “… para derrubar o ateísmo dogmático”

    Mas o leitor padece por não saber qual a diferença entre os dois tipos, seu título sugere que irá explicar a diferença.

    Mais para frente vc usa a frase: “… estupra toda a Epistemologia e a Teoria da Ciência”

    Um leigo por mais que se interesse no que o texto diz, dispersa a atenção tentando achar em seu cérebro referencias sobre “que diabos é epistemologia e teoria da ciencia”

    Nesses casos usar links para o assunto é interessante 🙂

    Como isso se repete várias vezes o leitor cansa e acaba deixando seu texto sem ler e perde-se a coisa mais importante de um blog tem: “o poder de comunicar” isso que faz a diferença entre livros de sucesso e livros acadêmicos de biblioteca 🙂

    Espero que não fique zangado pelas minhas observações mas é que eu realmente fiquei curioso sobre o assunto que vc descreveu mas não ao ponto de querer decifrar a linguagem acadêmica e os vários pressupostos deixados.

    Abraços

  • Gostei do texto. Também porque reflete bastante do que penso.
    Quanto ao termo assintótico talvez fosse melhor dizer que o ateísmo é assintótico à crença de que não há deuses em vez de dizer que é “assintótico”. Afinal, assintótico precisa de complemento nominal. De qualquer forma, dá uma idéia do que queres dizer, mas poderia ser melhorado.

  • Muitissimo boa sua defesa de Deus como uma hipotese cientifica. Aprendi coisas novas com esse texto, soh espero que seja honesto! Fique com Deus! 🙂

  • Parabéns pela forma que conduziu o texto, a análise que você fez, utilizando todos os elementos necessários para a compreensão do tema (expondo com caráter histórico), mas, ao mesmo tempo, conseguindo se afastar de opiniões, fazendo com que cada um leia e enxergue os fatos (se assim o desejar).

    Com certeza, essa base intelectual não é imediata, é fruto de muito tempo de leitura, um processo árduo, por isso não existem muitas mentes livres como a sua e, possivelmente, também não existe uma troca de idéias, mas espero que você não abandone as publicações.

  • biribikan

    sim…
    porém toda essa argumentação só funciona se você pressupor uma única forma de racionalidade…

    advinha qual é?…

  • Não faço idéia, Biribikan.

    Em todo caso, não acho que se pode tratar a racionalidade em mais de um tipo. A razão é única. Assim como a Lógica.

  • Diego Oliveira

    Excelente o texto, Eli. Parabéns!

    Tomei a liberdade de repostá-lo – dando a você todos os merecidos créditos, claro – no fórum Ateus do Brasil ( http://ateusdobrasil.com.br/forum/index.php?topic=722.0 ).