23rd of September

Experiências de quase-morte virtuais


“Illusion mimics out-of-body experiences
Camera trickery shows how easy it is to fool the mind.”

Na Nature: http://www.nature.com/news/2007/070820/full/070820-9.html

por Michael Hopkin

“Cientistas deliberadamente enganaram pessoas para pensarem estar olhando para si mesmas por fora de seus próprios corpos, usando tecnologia de realidade virtual. O achado revela como o cérebro pode ser confundido quando luta para integrar informação confusa advinda dos diferentes sentidos.Pessoas que alegam ter tido experiências de quase morte (EQMs) – mais notoriamente pacientes na mesa de operação ou aqueles que escaparam por pouco da morte – descrevem uma sensação de ter flutuado fora de si mesmos, por exemplo, em direção ao teto de uma sala de operação. Do teto eles observam seus corpos e as atividades ao redor.Tais experiências têm sido apresentadas por espiritualistas como evidência de uma alma. Mas a nova pesquisa mostra que é possível criar uma sensação similar simplesmente enganando a mente.Entender como a mente às vezes se percebe viajando fora do corpo poderia ajudar no desenvolvimento de jogos de computador mais realistas ou sistemas robóticos remotos, ou até mesmo ajudar a entender os cérebros daqueles que alegam experimentar o fenômeno naturalmente, tais como esquizofrênicos e epilépticos.

Você, eu, eu, você

O efeito foi criado em dois experimentos distintos descritos na Science esta semana, ambos usaram um método simples para enganar os voluntários para pensarem que suas mentes tinham sido destacadas de seus corpos. Em casa caso, os participantes usaram óculos de realidade virtual equipados com câmeras apontadas para seus corpos.Em um estudo, dirigido por Henrik Ehrsson na University College London, os voluntários foram então empurrados no peito precisamente no mesmo momento em que um objeto se aproximava da câmera. Nesse cenário, os voluntários se identificaram fortemente com a localização da câmera, pensando que lá se encontravam verdadeiramente – a visão de seus corpos era como a de outra pessoa.No outro experimento, dirigido por Olaf Blanke do Instituto Federal Suíço de Tecnologia em Lausanne, os pacientes viam uma imagem de suas próprias costas sendo empurradas, enquanto suas próprias costas eram empurradas da mesma forma. Neste exemplo, os voluntários se identificaram fortemente com a imagem de suas costas, pensando que se tratava de sua real localização – novamente fora de seus próprios corpos.

Informação demais

O efeito bizarro acontece porque, embora nos percebamos dentro de nossos corpos, o maquinário experimental tencionava que a informação sensorial fornecida ao cérebro não correspondesse a essa idéia, explica Ehrsson. ‘O cérebro pode se enganar internamente porque está sempre tentando extrair sentido da informação – se a informação é falsa ou errônea, ele poderia conceber uma interpretação errada.’O método não recria a EQM ‘clássica’ – mais impactantemente porque no ambiente do mundo real, não há maneira óbvia de uma pessoa “ver” a si mesma. Mas as pessoas poderiam, talvez, desenhar sua própria imagem mental do corpo para criar o efeito, diz Ehrsson. “Na sala de operação não há um espelho no teto, mas poderia haver um ‘espelho’ na cabeça”, diz ele. Ehrsson e Blanke suspeitam que esta ilusão poderia envolver algum tipo de malfuncionamento em regiões cerebrais tais como o córtex tempoparietal, que integra a informação sensorial.Entretanto, “este novo experimento trouxe finalmente EQMs para o laboratório e testou uma das teorias principais de como elas ocorrem”, comenta Susan Blackmore, uma psicóloga da University of The West of England em Bristol. “Descobrir que EQMs são um fenômeno perfeitamente natural não prova que não há corpo astral, ou alma, ou espírito, mas certamente faz sua invenção ser supérflua.”

Descrença suspensa

O efeito até funciona com manequins plásticos, como descobriu a equipe de Blanke que substituíram a imagem do voluntário pela imagem de uma boneca comprada por 100 francos suíços (83 dólares)(confira o vídeo). Mas quando usaram um simples quadrado de metal como imagem, o efeito de EQM não se materializou, mostrando que o truque só pode ser extendido até aí.Descobrir exatamente como muitos voluntários podem suspender sua descrença será crucial no desenvolvimento de tecnologia para permitir usuários a assumir personagens diferentes, de robôs remotos a avatares de realidade virtual, diz Blanke.Usando informações visuais e táteis apropriadas para transmitir a sensação de estar operando no corpo de um robô ou personagem virtual poderia ajudar com aplicações que vão do projeto Robonaut da NASA, que tem por objetivo controlar robôs na lua, a cirurgiões executando operações pela internet. “Essas aplicações poderiam ser melhoradas se você pudesse ter a ilusão de que realmente está naquele lugar – você poderia agir muito mais intuitivamente,” diz Ehrsson.”

Link para o vídeo:http://www.nature.com/news/2007/070820/multimedia/070820-9.avi