“A ciência, diferente de todos os assuntos, contém em si a lição do perigo de se acreditar na infalibilidade dos maiores professores da geração precedente. (…) Aprenda com a ciência que você deve duvidar dos especialistas. Na verdade, posso definir ciência de um outro modo: Ciência é a crença na ignorância dos especialistas.”

Richard Feynman, 1999

O filme “Quem somos nós?” [“What the bleep do we know!?”] se propõe, entre outras coisas, a uma árdua tarefa: uma grande síntese entre as ciências, as religiões e as filosofias, ao mesmo tempo em que procura mudar o conceito de realidade, ou até mesmo negá-lo. Muito disto com base em interpretação dos conhecimentos adquiridos em Física Quântica, Fisiologia, Neurociências, Química e Astronomia.
Começa com uma referência à teoria do Big Bang, em voga na Astronomia, e discorre sobre o caráter probabilístico da Física Quântica. Mas em pouquíssimos momentos deixa claro de onde vêm conceitos como o Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg e como eles são aplicados.

Todas as afirmações de caráter moral no filme, supostamente inevitáveis à luz da Física Quântica e outras ciências, são estritamente pessoais (embora os autores não o digam) e não são cientificamente verificáveis.

O termo “quântico” vem de quantum (pacote), e é usado desde o modelo atômico de Niels Bohr que demonstrava que orbitais atômicos poderiam ser ocupados com elétrons com valores determinados de energia. Descobriu-se que a elestrofera não é um continuum energético, mas divide-se em quanta de energia. Posteriormente, Werner Heisenberg postulou um princípio de incerteza sobre partículas subatômicas, que diz, grosso modo, que quanto mais se sabe a posição de uma partícula, menos é possível medir sua velocidade, e vice-versa. E que por este motivo existe uma espécie de superposição espacial de uma partícula, e probabilidades diferentes de encontrá-la em determinados pontos.

Este princípio assustou Albert Einstein, que para a defesa de suas acepções científicas, disse que “Deus não joga dados com o universo”. Infelizmente para Einstein, a Física Quântica pôde jogar dados com o universo e verificar empiricamente o princípio da incerteza. Esta ciência também se valeu da descoberta da essência dualista das ondas eletromagnéticas, a qual teve participação de Einstein, e das demonstrações empíricas de que qualquer corpo material pode ter comportamento de onda.

No método científico, existe uma regra-mor sobre os resultados de uma experiência: não se deve extrapolar os resultados. Os resultados de um experimento não são uma panacéia, são uma resposta modesta para uma verificação modesta de uma hipótese. Verificou-se experimentalmente o caráter probabilístico das partículas elementares. Mas isso não quer dizer que tenha sido verificado experimentalmente que bolas de basquete e pessoas se comportam como partículas quânticas. E nesse ponto o filme tropeçou crassamente, como nas cenas do basquete e da multiplicidade da protagonista.

A Física Quântica de fato escandaliza o senso comum que temos sobre a matéria e a energia. Mas como toda ciência, não se propõe a interpretações de caráter moral, ético, político, religioso e comportamental como as que são divulgadas do começo ao fim do filme (os cientistas podem e devem fazê-lo pessoalmente). Há espaço para que se pense a respeito, mas as teorias científicas quânticas dizem respeito às partículas, e não devem ser levianamente aplicadas a outros aspectos da natureza sem a devida experimentação. Toda matéria e energia é resultado das interações quânticas, mas não se vê trabalhos científicos sérios que atestem as afirmações que existem no filme, como a de que o “mundo nos sente” e de que a realidade natural é fruto de nossas mentes. Também são altamente controversas as idéias de que não há limites para se influenciar o corpo com idéias. Nenhum dos autores se preocupou em verificar sua segurança nesta hipótese, dado que nenhum deles tentou andar sobre a água (algo sugerido no filme), entortar talheres com a força do pensamento ou fazer crescer um membro amputado.

É algo extremamente negativo, no filme, que se compare partículas quânticas às decisões das pessoas, às “verdades” e “realidades” e outras facetas humanísticas, pois estas não são do escopo de aceleradores de partículas. Esta interpretação obviamente pessoal gera muita confusão e atribui à Ciência o que não é verificável experimentalmente. A ciência tem de partir do postulado de que os órgãos dos sentidos humanos são confiáveis e de que captam uma realidade física independente da espécie humana. Foi assim que se chegou a muitas coisas que não podem ser captadas pelos sentidos humanos, como ondas de rádio. Novamente, nenhum autor se preocupou em exibir evidências de que o mundo físico é apenas “a ponta do iceberg” num todo de universos paralelos. Essa afirmação também não foi verificada experimentalmente pelos físicos quânticos.

Pode ser muito positivo que haja no filme a divulgação de certos conhecimentos científicos, mas para compreendê-los a fundo os espectadores terão de fazer muito mais do que alugar um DVD.

É curioso que em nenhum momento os autores tenham falado sobre o método científico (ou evidências de suas afirmações). Sobre os mecanismos de obtenção de respostas que os pesquisadores usam. Tem-se a impressão de que os achados são revelações religiosas, ao ponto de desbancar a concepção que as pessoas têm sobre divindades. Não se compara o fisicamente testável com o metafísico. Os dois saem feridos dessa mistura.

É falaciosa a afirmação de que existe um composto químico para cada emoção humana. Novamente, não se apresentaram evidências. É passada a impressão de que cada célula no corpo percebe as emoções de uma pessoa, ou de que cada célula reage a elas. A informação foi obscurecida a tal ponto que as cenas cômicas com animações de células (que defendem a idéia de que as células possuem algum tipo de consciência) chegam a ser constrangedoras para alguém que já estudou os fundamentos de biologia celular e sinalização celular.

A representação e narração sobre as sinapses está em algumas partes equivocada. A transmissão de comandos nervosos não consiste apenas em corrente elétrica mas também em neurotransmissores. “Tempestade elétrica” é um termo mais usado para epilepsia do que para o funcionamento comum do cérebro. As informações transmitidas no filme sobre a relação entre neurônios e a relação do cérebro com o corpo também foram demasiado obscuras. Criticou-se o determinismo, mas ao mesmo tempo ele foi praticado quando sugeriu-se que as pessoas procurassem explicações exclusivamente bioquímicas sobre suas emoções e problemas. Alegou-se que as emoções foram “projetadas”, o que é uma idéia que vai contra a Biologia e não a favor dela. “O observador” não foi devidamente definido embora tenha sido uma constante na argumentação do filme. Se é a consciência humana, é louvável que se encoraje os espectadores à reflexão sobre si mesmos. É natural que o cérebro tenha apenas uma parcela de suas ações executadas voluntariamente, pois se houvesse consciência de todos os seus processos, a energia a ser gasta seria provavelmente insustentável.

A afirmação de que pensamentos e emoções humanas interferem na formação de cristais de gelo é falaciosa e pseudo-científica. Foi dito que a água é um dos “quatro elementos”, mas este modelo de elementos está ultrapassado há séculos e é usado apenas em cultos místicos. Foi infeliz para o filme falar tanto em ciência e sequer explicar que já existem mais de uma centena de elementos descritos, e que a água é formada por dois deles. Para se falar em formação de cristais no gelo, é obrigatório analisar interações intermoleculares, e fez muita falta a explicação exata de quais mecanismos o pensamento humano usaria para influenciar na forma final de um cristal de gelo. Sequer foram apresentadas evidências de que este fenômeno realmente acontece, apenas um relato com apelo à autoridade do autor do experimento.

Falou-se também em “ciência desconhecida”. Se esta é a razão de não apresentarem evidências no filme, apenas apelo à empatia dos espectadores e à autoridade dos autores, só o tempo dirá.

“Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias.”

Carl Sagan, 1980

Embora a divulgação científica seja sempre algo muito bem-vindo, é preciso ter critérios para que a informação seja passada corretamente dentro de um contexto que seja o mais imparcial possível. É preciso separar ciência (que usa o método) e pseudo-ciência (que fracassa em aplicar corretamente o método). Também é preciso que se evite confrontos com a metafísica das religiões e filosofias.

Neste filme é passada uma visão perigosa sobre o homem. É uma visão narcisista de um ser humano quase onipotente, de um universo submetido à vassalagem do antropomorfismo ufanista aplicado às suas entranhas. Pois se afirma que a realidade é dependente do que o homem pensa e que tudo o que conhecemos é a combinação de pensamentos e idéias. Esta visão é natural para as religiões, mas pode apenas prestar um desserviço à ciência.

A Ciência é, como o filme tentou demostrar, algo extremamente transformador sem o qual mal se viveria atualmente. Mas a Ciência não é feita do que achamos emocionalmente lucrativo, e sim do que é corroborado empiricamente. Não se propõe a ser uma verdade absoluta, mas uma verdade aprimorável com mecanismos de auto-correção. Teorias científicas amplamente verificadas são tão verdadeiras quanto a necessidade de se respirar. Mas se um indivíduo se propõe a duvidar da verossimilhança deste fenômeno, de seus pulmões e do ar, num misto de credulidade ingênua e ceticismo exacerbado, não haverá muita resposta para ele dentro da ciência. Julgar se outras áreas fornecerão respostas afins, sem um método confiável, é algo estritamente subjetivo.