14th of September

Batismo


“No século XIX alguns arqueólogos descobriram em Enoanda, atual Turquia, os restos de uma muralha, com uma inscrição. Dela constavam trechos de ensinamento que Diógenes de Enoanda, discípulo de Epicuro, gravou para disponibilizar a todos quantos passassem por ali, fosse homem, mulher ou criança, de qualquer nacionalidade, o que seria um resumo da sabedoria humana em quatro frases, uma prescrição médica para a alma, um TETRAPHARMAKON [τετραφάρμακος] que dizia:


1) Não há nada a temer quanto aos deuses;

2) Não há necessidade de temer a morte;

3) A Felicidade é possível;

4) Podemos escapar à dor.”

Embora a cura em quatro partes (tetrapharmakos) possa não ser completamente verdadeira ou factível, este blog será uma tentativa de fazê-la verdadeira e factível.
Como biólogo e ateu, quero executar esta tentativa in vitro, pelas rédeas da razão e da ciência.
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18/03/2008

O aparente paradoxo acima merece explicação.
Quando digo que não é factível, mas mesmo assim o farei, o que tenho em mente é que não me esforçarei diretamente em convencer ninguém de que deuses não devem ser temidos.

Muitos sistemas de crença trouxeram justamente o contrário do que propunham ao terem a preocupação ávida de tentar mudar atitudes e pensamentos. Muito mal brotou da preocupação excessiva em estabelecer padrões pétreos de bem.

Me interesso apenas por conhecer, questionar, e argumentar. O que derivar disso, acredito, é que vai insuflar em mim e nos outros os princípios do Tetrapharmakos. Em buscar a amoralidade científica e tentar trazê-la para a Filosofia, para que nossas conclusões não sejam contaminadas por nossos desejos e nosso modelo de mundo não tenha cheiro de esperança ingênua ou desespero, podemos nos deparar eventualmente com uma resignação sábia para com a indiferença do Universo, uma contemplação vivaz da Natureza sem qualquer subserviência à sua força, apenas respeito.

A figura de Epicuro inspira uma atitude mental sã, de um ser humano que desperta e se vê como um simulacro racional; que vê a Natureza não como mãe bondosa, nem como madrasta má, mas como um berço inerte ao mesmo tempo confortável e desconfortável. E ainda assim, uma mente perspicaz, que usa de múltiplas hipóteses e intuição probabilística para explicar fenômenos e impressões, que tem uma atitude empática para com outras mentes, e que expurga a trivialidade do dia-a-dia dando lugar a uma sucessão de espetáculos.

Esta atitude filosófica, encontrada como subproduto de um modo de pensar e não como um santo graal digno de sede sôfrega, é que permite a libertação do temor da morte e dos deuses, e uma nova forma de suportar a dor e desfrutar da felicidade – esta também um subproduto, não uma jóia cobiçada.

  • Thaís

    Pronto, terminei de ler seus textos de 2007.

    😀

    Ótimos textos, sem dúvidas. Parabéns pela atitude!
    Abraços.