Em programas de rádio e de TV, há pouca dúvida sobre a compatibilidade de librianos com arianos, sobre o ascendente e a forma das constelações. Ninguém pensa duas vezes antes de classificar certo comportamento de alguém como típico de quem pertence a tal signo.

Na Universidade de Brasília existe até um “Núcleo de Estudos dos Fenômenos Paranormais” que periodicamente promove debates, e estudos que supostamente validariam o poder de previsão do conhecimento milenar dos Astrólogos.

A Astrologia é para a Física o que a Homeopatia é para a Medicina – uma pedra no sapato, uma irmã bastarda de tempos antigos.

Mas existem três grandes obstáculos, ou impossibilidades à aceitação da Astrologia como um conhecimento científico que goza de evidências a seu favor.

Primeiro, a impossibilidade comportamental.
Os bilhões de seres humanos nesse planeta estão sujeitos a influências culturais (e ambientais) que moldam suas personalidades, e é justo supor que essas influências, ao menos no passado, divergiam conforme a distância em que os grupos humanos se encontravam. Não que seja impossível que um asteca tenha tido uma personalidade similar à de um assírio, mas é mais provável que um asteca tenha se parecido mais com um inca porque o trânsito de informação entre essas culturas era geograficamente mais fácil.
As influências genéticas à personalidade podem ser igualmente complexas e dependentes de contato sexual entre os grupos.
Levanto estes dados apenas para dar uma idéia do quanto as personalidades podem ser complexas, e que classificá-las em número limitado, como os 12 signos, é trabalhoso e bem questionável.

Achar que é possível prever o comportamento de um pisciano em oposição ao comportamento de um leonino é simples ignorância em relação à complexidade cultural da espécie humana.

Segundo, a impossibilidade biológica.
Pouca gente na ciência hoje adota a divisão cartesiana entre mente e cérebro (corpo). Se há um lugar em que a mente está, este lugar é o córtex cerebral, e as pessoas dependem de outros pontos do cérebro para armazenar memória (importante para o sentimento de unidade da personalidade). Enfim, não há mente sem cérebro.
Embora virtualmente todas as pessoas possuam os mesmos lobos cerebrais, e outros pontos anatômicos, no nível das conexões neuronais (e até número de neurônios e tamanho do cérebro) as pessoas divergem muito entre si.
Para que a Astrologia fosse verdade, os astros de alguma forma teriam de limitar as rotas do desenvolvimento das conexões neuronais no feto a 12, ou um número limitado de rotas que até certo ponto determinariam a personalidade das pessoas que tivessem passado por este desenvolvimento controlado cronologicamente (num ciclo anual).
Mas isso não acontece.

O cérebro humano é espantosa e admiravelmente plástico, tanto durante quanto depois do desenvolvimento. É um enriquecimento à nossa natureza que a Astrologia seja falsa.

Em terceiro lugar, a impossibilidade física, que parece mais simples e está conectada às duas outras impossibilidades, principalmente a biológica.

Além de não existir mecanismo conhecido ou concebível de influência dos astros ou constelações sobre o tecido cerebral, os astros e constelações são muito menos estáticos do que os astrólogos pensam.
Estrelas morrem e nascem, tanto que se não tivesse havido a explosão (supernova) de uma estrela “aqui” onde estamos (presume-se que a matéria que nos cerca tenha se mantido razoavelmente coesa em seu trânsito pela galáxia nos últimos bilhões de anos), os planetas não estariam aqui, e não haveriam elementos pesados para permitir a vida.

As constelações são um padrão que muitas vezes só faz sentido visto daqui da Terra (e além disso, esse sentido é atribuído diferentemente por “astrologias” diferentes, como a dos ameríndios), e este padrão muda no decorrer dos milênios – estabelecer padrões absolutos para as galáxias é como jogar um punhado de areia para cima, tirar uma foto dos grãos e depois dar nomes a eventuais desenhos entre eles nas limitações bidimensionais da foto retratando uma configuração efêmera no ar. A Astrologia mistura estrelas com galáxias inteiras, não há um critério de considerar o tamanho do astro, quantidade de luz que ele emite, ou espectros de luz que ele emite.

A Astrologia aos olhos da Física não passa de uma piada gigantesca, como a teoria dos miasmas e a da geração espontânea são uma piada para a moderna Microbiologia.

As dúvidas da Física Teórica hoje, sobre o âmago da matéria, sobre os limites, origem e futuro do universo, são distantes das hipóteses astrológicas.
Não há meio concebível de que coisas estranhas como o comportamento das partículas quânticas possam validar a Astrologia, é extremamente improvável também que as cosmogonias teóricas como o Big Bang o façam.

Embora saibamos que a matéria contida nos tecidos biológicos obedeça à Física Quântica no nível das partículas, é possível fazer muita coisa na Biologia ignorando isso, mesmo nas Neurociências. Assim como é possível fazer muito no lançamento de satélites usando só a física de Newton (ignorando os ajustes de Einstein).
Se os cientistas prestarem tanta atenção a detalhes, ainda assim a Astrologia não vai florescer como ciência.

A Astrologia agora só tem a saída das religiões e pseudociências, que trabalham com possibilidades lógicas improváveis no mundo físico.

Por que então as previsões da Astrologia podem funcionar? Coincidência, vontade de acreditar, e coisas simples disfarçadas de previsão como “queres ser feliz, ter sorte no amor e no trabalho” e “percebes que és diferente das outras pessoas e tens espírito de liderança”. Será difícil achar quem não queira essas coisas e não idealize sua própria personalidade dessa maneira.

Ainda assim, estamos fadados a passar nossas vidas tendo de responder a que signo pertencemos em primeiros encontros com prováveis cônjujes.